CANTO E LÁGRIMA: VIDA INTENSA E NÃO REGIDA

"Regida demais, intensa de menos. Lágrimas engolidas pelos cantos da alma que não tem tempo pra sorrir, chorar, sentir. Mãe, irmã, filha, amante, dona de casa, esposa, profissional exemplo..." Relatos das várias mulheres que se escondem dentro de cada mulher, seu mundo, intocável para aqueles que só enxergam com os olhos da carne.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Tempestade


Olho para o por do sol 
dos dias em que o céu furtacor
e você está lá...

Ouço atentamente a trilha sonora
que me embala os dias
e de alguma maneira ouço você

Danço com suas saias
se irradio, sou bonequinha
a boneca dos seus truques...

Olho para o céu nublado
carregado de lágrimas
e você está lá...

A tempestade me lava o corpo
de suas nuvens... e você está lá...
você dança comigo e se vai.

Por fim somos eu e o Céu
profunda imensidão azul
e muita luz....

Você está nos livros, nos textos
está no espírito, no peito
e arisca, te afasto dos pensamentos

Seu amor também é meu...

Meu amor é saudade
Saudade como tatuagem
Saudade vã, sem cor...

como todo amor que passou...


domingo, 1 de novembro de 2015

cores e flores



De longe bem de perto 
a gente pode ver
tudo mudar de cor. 

É olhando sem tentar ver 
que o cinza quebra 
o preto no branco 
e avermelha os tons 
dourados do amanhecer. 

Quando nasce a estrela lá fora,
 o sol queima por dentro 
e tons antes violetas violentos 
enfim lavandam lilases 
e florescem furtando cores
das jardineiras mais bem cuidadas. 

Rosas... Gerânios... 
Margaridas amarelas 
treinando para serem girassóis...

A luz amarela, quente, 
acolhedora abraça as almas 
como a estrelas que reconhece nelas 
e ali semeia o terreno para que 
com as lágrimas de orvalho 
em cada manhã, 

todo entardecer seja a certeza 
de que germinam cores 
em uma nova paleta de flores 
com as luzes radiantes 
que só as almas plenas 
de amor podem gerar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Valsa no Céu


Toda essa ternura, 
esse imenso mar lilás, 
faz o coração 
palpitar dentro do peito. 

E a alma, 
essa ingênua viajante de energia, 
invade corpos a que quer pertencer, 
provoca magia e prazer,  encanta 
e se perde no caminho de volta.

Ah, essa alma cigana! 
Não sabe que essa mistura 
de essências é perigosa. 

Ela quer ser todas
as suas vidas em uma só, 
numa esquizofrenia de existências. 

Se perde em reencontros estelares 
e muda de rua 
pra evitar cruzamentos perigosos...

Ela baila com o universo 
entre passos ensaiados 
e improvisos saltados, 
numa valsa sem fim.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Confissão de uma bonequinha


      Lembro de dizer como adorava te ver chegar. Tinha um sorriso radiante que iluminava o olhar com estrelas. Tinha esse jeito doce de encantar meus dias com pequenas gentilezas. Aí veio a incerteza e te vi partir sem mais poder te ver chegar.
      Como pode alguém estar tão presente na ausência? Tenho lido que a espécie humana é criadora de histórias, que a imaginação está em nós tão intrínseca que não somos capazes de discernir o que é realidade do que é ficção em nossas vidas. Minha realidade é dotada de historinhas, devo confessar que tenho uma certa sedução pela melancolia e muito medo, paranoia natural pra uma espécie amaldiçoada com a consciência de sua própria morte.
      Nessa de tudo ser ficção, ainda assim preciso aceitar a realidade de que você imagina que ficar longe de mim é a melhor história que você pode inventar. Dá licença de te ter como meu coadjuvante?

(SILÊNCIO)

      O que acontece é que aqui nesta confissão eu apenas imagino que desejo de volta o sonho que vivi. Isso não é passado, nem é futuro e nem presente... É só mais uma história que fica circulando pela cabeça e distraindo do agora. E agora?
      Agora eu faço o artesanato que você deixou. Foco. Centro. Equilíbrio. E você. Do mesmo jeito que esteve comigo quando não dormimos juntos. Que correu e salvou meu gatinho pra não me ver chorar. Você que mora nas nuvens, chora na chuva e sorri ao pôr do sol. Você que me apareceu em um sonho aos pés da montanha mágica. Você que partiu sem nunca me deixar e sem nunca sair por completo. Você que sempre vai me relacionar ao Paraíso e que vai sorrir e vai chorar e vai ter tambores no peito se um dia ler esse texto...
      Saudade também é amor!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

IARA


Menina dos cabelos de cachoeira
quem foi que colocou estrelas
nesses olhos de chocolate?
Serão estes lábios de favos de mel?
As maçãs de teu rosto
adormeceriam Branca de Neve
E que pecado essa pele...
de um dourado canelado
perfeitamente aromatizado
pelas flores da primavera,
todas as brancas e as amarelas.
Cantas aos meus ouvidos 
quando contas tuas histórias
E teu corpo é meu ninho
onde, humano, quero morrer passarinho.

Se você já não existisse, menina
assim linda, assim doce, assim minha
eu teria que te inventar
e te tocar como melodia

ANJO CAÍDO



Um dia de céu nublado
O coração parou de bater
Mas ao invés de morrer
Caiu do céu pra ser achado

Na terra viveu sem emoção
Esquecido de sua essência
Tentando encontrar salvação
Em sua própria decadência

Anjo do Céu conheceu o mal
Andou por entre as pedras
Se infiltrou por entre trevas
Anjo caído das nuvens
Descobriu que na escuridão
Ainda lá não há sombra sem luz
Ainda ali existe coração.



sábado, 4 de julho de 2015

A CRIANÇA E A ÁGUIA

  Um dia de cada vez a gente vai vendo o mundo girar, a estrela brilhar, a vida acontecer. Em algumas dessas voltas tudo é luz e em outras, escuridão.
  Caminhando pelas sombras sobe um frio no peito, um vazio de energia que sufoca. Respirando sol, bebendo chuva, acinzentando a paisagem dos dias mais azuis, a gente segue se sentindo menor e confrontando a criança malcriada que resistiu aos anos.
  Ela grita, chora e pede colo, apesar das exigências do mundo. Criança que tem que aprender a ouvir NÃO e a perder o brinquedo de que não soube cuidar.
  A pressa e a ansiedade impedem a gente de ver com clareza a infinidade de eus que compõem cada um. Vários eus coexistindo, formando um só, como tudo no Universo. Dividido e integrado, maduro e infantil, forte e frágil, minúsculo e gigantesco, um paradoxo humano...
  "Decifra-me ou te devoro". Quando essa é a interrogação, a resposta está numa outra profundidade. Num mergulho sem paraquedas ao vazio interior. Uma queda livre que sai resgatando os vários eus numa só essência.
  Nesse resgate a queda também é vôo, permitindo o contato sincero e nu com todas as vulnerabilidades e com todas as fortalezas que formam cada imperfeição. É quando um ser humano consegue ser sua própria águia. Num vôo solitário e atento, com os olhos precisos aos detalhes e aos menores movimentos.
 
Talvez ser uma águia a observar a própria caminhada permita o vôo com mais liberdade do que sonha a criança malcriada. É preciso ter coragem para saltar e acreditar que vai voar.
  Você sabe voar?

sábado, 16 de agosto de 2014

Varinha de condão

tenho cá comigo umas incertezas... 
um peito cheio nem sempre é gripe.
às vezes vazam fluídos violáceos
por todos os lados
num lago transbordante de luz
que a gente não consegue ver.

nadam bichos nos meus lagos,
uns bonzinhos outros não,
bichos que vou inventando e alimentando
e outros que, como vêm, vão.
são bichos de mim
que me fazem ser gente.

gente que furta cor e cria sorrisos
e que chora lágrimas de amor
gente que se inventa e não se entende,
que sorri e se alimenta e que dá a mão,
que flutua em bolhas de sabão.
e pesa toneladas quando os pés no chão

sou magia que vem e vai e
sou vida dura e vida real
sou sonho e sou pesadelo
e sou partes pra ser inteiro.
eu sou da energia do sol

domingo, 11 de maio de 2014

Meretriz

o sol queima em meu baixo ventre
fonte de calor primária do meu ser
meu sexo me impulsiona para a luz
acordo desejo e vou me deliciando de vida durante o dia
anoiteço molejo e vou me despindo em magia durante a noite

de dia meu corpo em curvas perigosas
exalando aromas entorpecentes
minha flor em pétalas desabrocha
atrai meu predador para uma refeição embriagante
mal sabe ele que em seus braços se torna caça

à noite preparo meu jantar
devoro as partes de meu cativo
bebo seu vinho e dele me enveneno
uma vez que me alimento por capricho de leoa
solto as correntes de minha fera e desapareço na rua

a Lua refresca minhas entranhas
pinta de branco meus líquidos
meu ventre se torna casa noturna
adormeço perfumando de luz os quartos escuros
amanheço orvalho em gotas de substâncias ilícitas

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Violeta

Com o coração gigante era estranho que aquele ser pudesse existir... Mais curioso ainda que pudesse ser encantador. Quanta beleza pode ser vista a olhos nus? Ali estava a prova de que beleza pode ser tão subjetiva quanto óbvia!

O coração pulsava forte, fazendo brilhar uma luz violácea em seu peito. Os seios fartos, como que se a Natureza em sua perfeição houvesse modelado a filha à sua imagem e semelhança. A marca da fertilidade da Mãe. 

Apesar de pequenina, os cabelos de fogo com a pele pálida e o corpo macio e carnudo faziam daquela a imagem de uma deusa. Esbelta, mesmo com corpo farto, ela flutuava em direção às pessoas sabendo exatamente a quem deveria se mostrar. E quando tocava essa criatura era como se a vida finalmente chegasse a um pobre coração que nunca soubera ser dotado de luz. 

Certamente aquela mulher não era como as outras... Nascera condenada por trazer dentro do peito um coração grande demais. Todo dia sua mãe agradecia com a pequena nos braços e a beijava como a um anjo, com respeito e cuidado. Assim ela aprendeu, em casa, no seio da mãe, que sempre lhe alimentou mais de amor que de comida em tempos de vacas magras.

Cresceu com muitos cuidados e ao mesmo tempo com a leveza de existir hoje e não fazer tantos planos pra um futuro sempre tão incerto... Talvez seja por isso que sua luz violeta se tornara capaz de iluminar corações a milhares de quilômetros de distância. Ou talvez seja apenas eu que, não entendendo tanto amor num só peito, tente encontrar uma explicação de acordo com meu conhecimento limitado sobre os mistérios que rondam a existência.

O fato é que ela me tocou. Senti uma forte atração quando caminhou em minha direção. Senti perfume de flores, um aroma doce, suave, inebriante. Era a mulher mais linda que já havia cruzado meu caminho. Aquela mulher poderia ser a encarnação da sensualidade do universo. Quando ela chegou ao alcance de minhas mãos, me olhou nos olhos e não disse nada. Fiquei imóvel. Ela pegou minha mão, afastou o lenço do peito e mergulhou meus dedos na carne macia que lhe protege o coração gigante. Eu chorei!  

No momento que ela me tocou com seu coração gigante, me perdi num clarão de luz violeta e senti se esvaírem de mim todas as feridas colecionadas ao longo de anos lidando com humanos tão adoráveis quanto cruéis. Rios de lágrimas nasciam em meus olhos, ela me deitou em seus braços, acariciou meus cabelos e cantou pra mim com a voz mais aveludada que já ouvi. Aí entendi o que estava acontecendo...

Ela fazia de mim cria em seu ninho. A verdade que acontecia ali era muito maior que o maior dos prazeres, muito mais libertadora que todos os elos de todas as correntes rompidos. Aquele coração imenso era capaz de sanar todas as minhas chagas e de me mostrar, como quem abre uma porta que sempre esteve ali, encoberta por umas bagunças, que nenhum mal agora seria capaz de atravessar a luz violeta que pra sempre carregaria também comigo. 

Ela me tocou... por muito tempo me perguntei porque foi até mim... Por muito tempo também não me importei mais com essa explicação. Muitas coisas ganham magia justamente por não sermos capazes compreender. Violeta me fez enxergar o mundo por lentes mágicas que me fizeram ver o caminho sem medos, sem obstáculos capazes de me derrubar. E assim eu cresci. Eu rompi barreiras, ganhei mundos que nem imaginava que pudessem existir.

E depois de todas as lições de cada dia, depois de cada batalha, eu voltava ao nosso ninho, e encontrava ali a força do amor. Mesmo que muitas vezes o único corpo ali estendido fosse o meu com a saudade, estava pra sempre com a energia lilás do amor. Aquele ninho era o meu lar e ali estava tudo que eu precisava para me completar em corpo e alma. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A DANÇA


Às vezes tenho uma necessidade urgente de extravasar.
Às vezes meu corpo material é muito pequeno pra tudo que me atravessa.

Nessas horas eu danço!

Muitos outros exercícios poderiam suprir essa necessidade de transformação de energia. De manutenção de fluxo de vida.
Há, entretanto, no ato de dançar, todo um ritual que me transborda numa cachoeira quase divina de energia vital, que me preenche completamente e que me insere na minha posição adequada no Universo.

Eu sou um ponto minúsculo no Universo do Big Bang. Um grão de areia brilhante que habita um terceiro planeta de uma estrela qualquer que nem é tão grande assim... 
Minha natureza é de luz! É da mesma natureza dos elementos que formaram as estrelas que admiro no céu. Da mesma natureza, em sua devida proporção, das constelações e galáxias. Estas que dançam incessantemente no espaço infinito.

Minha energia também precisa de movimento. Meus quadris por vezes entram na órbita do meu ventre, ali onde se concentra a energia que gera vida. Minhas pernas obedecem à trajetória, meu corpo se contorce em movimentos rítmicos, voluntários, curvilíneos e rotacionais... Viro um pião, irradio calor. Devolvo ao Universo a energia que me foi enviada para que eu fosse capaz de sobreviver, mesmo nas mais árduas condições.

O Universo por sua vez me devolve luz e me preenche de novos fluxos de vida vindoura! Sejam quais forem as surpresas do caminho...

Seria muita presunção de minha parte supor que o Universo entra na minha dança. Gosto de fazer essa imagem em minha mente, todavia estou ciente de que acontece exatamente o inverso.

Quando fecho os olhos e me deixo ser levada por sons que me invadem e que me atravessam quase como sendo partes de mim, neste momento entro em sintonia não só com a música, mas com tudo que nos envolve. Com o ar, com a paisagem, com os fluxos de energia que são incessantemente trocados entre meu corpo e o todo que está à minha volta, às voltas de minha cidade, de meu país, de meu continente, de meu planeta, de minha galáxia...
Sou eu quem aceita o convite do Universo, quem lhe dá a mão gentilmente e permite que ele me conduza em piruetas mágicas e transcendentais, valsando entre as estrelas e absorvendo um pouco de suas luzes pelo caminho...

Sou bailarina sem sapatilhas, sem ter tomado aulas de dança, sem saber os passos apropriados. Minha coreografia é por intuição. Minha coreografia se dá pela sensação de ser parte deste todo. Meus movimentos são conduzidos e se devem ao não pensar, ao apenas me ver como parte deste conjunto, ao ato de permitir que o Universo me conduza e não o contrário. Não há escolhas, não há erros... Há apenas um caminho: aquele por onde sou levada através de toda a energia cósmica quando cerro os olhos e limpo a mente permitindo que me invada apenas o todo... Sem que nenhuma das partes o faça individualmente.

Transformo-me no que posso ser de maior quando, conduzida pelo Universo, lhe entrego as fitas da sapatilha para que ele me determine os passos...

E assim, brincando, o Universo me conduz em sua valsa e me devolve música e luz e me renova as energias vitais num ato do mais puro amor. É a prova de que mereço estar viva, de que cada passo dessa dança vale a pena e de que seres humanos são estrelas em suas próprias existências... eu sou e você também é. Portanto, dance!!!

terça-feira, 25 de março de 2014

LUNAR


era lunar.
seu olhar, seu sorriso, sua voz, sua pele
não por cor, mas por textura.

e você pergunta se já toquei a lua pra saber senti-la?
minha lua é assim! macia como pétalas em flor. e meio fria...
de uma frieza suave que poderia queimar em segundos.

aquela textura me acendia, me banhava de cor, me trazia vida! 
e era intocável! era apenas palpável numa dimensão alternativa em que os sentidos se fundem e o olhar pode tocar a tez 
e os ouvidos cheiram cada timbre da voz como seguissem as damas da noite a perfumar a escuridão com suas pequeninas saias brancas dançando suavemente na primavera .

seu olhar, um prateado mar tranquilo. tão límpido
era paradoxal... de uma profundidade devoradora.
sua voz era divina. só podia ser. voz que comanda, incontestável. 
de uma delicadeza que acaricia os ouvidos antes de penetrar som. 
me invade tão naturalmente que a única ação possível é sorrir... sorrir e obedecer automaticamente, quase como se absorvesse aquela voz como um pensamento meu...

seu sorriso guardava todas as estrelas do céu e o mistério do universo. trazia um sorriso brando. encantador, contagiante.
luz que irradia a serenidade de um anjo e esconde seus poderes mágicos. naquele quarto de lua minguante estavam as asas quebradas de quando caíra.

ah... e sua pele...  me fazia desejar banhar-me de lua. eternizar-me em gemidos nos quartos de seu céu.
em seus mares posso transbordar luz. e tudo que vejo e sinto e percebo me atravessa com energia celestial e com fortes cores pálidas me tingindo de paixão.

desejo intensamente enroscar-me nesta textura nua de luar... essa textura que me atravessa enquanto brinco e que me chove...
chove lunar

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Despetalada...


Por vezes tiro o dia, ou a noite, para fazer passeios em alguns de meus caminhos internos. Pego vias por onde não costumo andar, encontro algum entulho tentando invadir-me ruas e calçadas. Noutros pontos encontro espelhos que me refletem em versões diferentes, umas melhoradas, e outras obscuras ou obscenas... Reflexos de lados meus que nem sempre acredito que existam ou que às vezes eu prefiro fingir que não me pertencem.

Povoada como sou de várias de mim, me surpreendo ao me ver cantar em uns cantos, colorir outros e descolorir alguns. Limpar os trilhos aqui, entulhar canteiros ali... Numas vezes planto flores, noutras colho espinhos... Perfumes se misturam no ar... Sinto meus cheiros! Costumam ser bons, mas nem sempre.

Enquanto vou andando e me infiltrando num mundo que só cabe em mim e em mais ninguém, me surpreendo ao notar quantas se recolhem por aqui. Quantas coloridas me habitam! Ou será que se escondem em mim? Talvez me invadam...

Em algum lugar que não reconheço posso ouvir, ao longe, uma mulher chorando e gritando. Não a vejo, nem me encontro nela... estranho!
Por que ela chora e grita tanto? Sinto falta de ar ao ouvir seus gritos distantes, como que em outra dimensão. Talvez por isso não consiga entender... Será por isso? Por que não a reconheço... quem pode ser?

Ela grita dor. Grita como quem teve sua luz arrancada, sua primavera despetalada e não mais pudesse florir.

Por que não consigo vê-la? Essa é uma pergunta que me assusta. Será que quero mesmo saber?

Se a ouço quando me visito, não pode estar tão longe... tem que estar em mim! Continuo perambulando por minhas esquinas. Vejo velhas sapatilhas de bailarina com o cetim carcomido... Vejo sangue escorrendo de cantos impuros e vejo lágrimas se misturando à sujeira... Procuro e a sinto, mas não como uma de minhas flores...

"Apareça, pequena! Deixe pra traz a dor!" Peço gentilmente em pensamento - se a escuto é provável que ela também me ouça. Não quero que me diga porque chora, nem que mal lhe fizeram. Me anseia seu sorriso, sua leveza... Quero abrir-lhe os olhos. Sinto que as lágrimas lhe embaçam a magia diária do sol indo e vindo... as cores mágicas que nos transportam através dos tempos e colocam novas páginas pra nos afastar daquelas poluídas pela dor...

Não consigo entender o que acontece, parece que converso comigo mesma. Vejo-me, entretanto, em espelhos diversos, em formatos variados, alguns nunca vistos, novos... mas essa moça... Ela não é nova, é antiga e não tem meus olhos... é por isso que não entendo, que não a reconheço... É por essa razão que não a vejo. Ela não tem meu rosto e isso me intriga! Ali, onde não me vejo, sinto uma luz roubada. São os gritos que me contam isso.

Quero poder libertá-la, fazê-la enxergar-se e viver seu espelho, olhar-se nos olhos e permitir se desnudar para os olhos hipócritas... Não sei por que ela grita em mim e não em outra pessoa... Suponho que eu possa ajudá-la. Será presunção demais pra uma mulher tão habitada por meninas? Como poderei saber..?

Mesmo sem poder vê-la, sinto a sujeira que lhe escorre pelas pernas... e em meio a tanta dor vejo seu seio carregado, capaz de alimentar todas as crianças que precisam de amor, este que irradia de seu centro.

Como sei que em mim vivem em harmonia e desarmonia tantas mães e filhas, que cuidam de mim e de quem cuido, procuro encontrá-la, desejo encontrá-la, limpar-lhe os olhos como faria a uma filha e vestir-lhe com algo que inspire magia... E ser música para ela dançar. Dançar com as cores que transformam o dia em noite e a noite em dia...

- Dance, pequena, onde quer que esteja! Dance como se suas pernas pudessem transcorrer os tempos e buscar o espaço necessário entre o sorriso reluzente que podem carregar as meninas em seus olhos e o rio que insistentemente lhes tenta afogar...

Sigo entre caminhos através de mim, buscando lugares desconhecidos para desbravar... Ainda não consigo vê-la, mas sinto e como sinto, pego o que acredito ser uma parte do que a faz migalhas e tento levar comigo. Tento aliviar-lhe o fardo. Não sei se consigo, mas se ela me faz sentir, se ela me faz ouvir seus gritos, então minhas mãos e minhas mães podem tocá-la, cuidar dela e tentar escutar agora gargalhadas... Ou graçolejos, ou quem sabe umas cantigas de ninar, calmas como seu coração deseja estar.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

TRISKLE

Quando eu era uma menina, sozinha com meus botões, minhas cores e algumas dores, só queria fazer parte de um todo qualquer. Lutava bravamente por isso, embora meu todo muitas vezes mais se parecesse com um apanhado generoso de migalhas.

Assim, crescendo torta entre sentimentos incompreendidos e carícias incertas e inconstantes, ficou fácil achar que nunca, nunca estaria pronta pra me mover, fazer acontecer e especialmente amar... É como se todo dia de chuva fosse a queda de um mundo que chorava sobre mim sem me permitir jamais me construir por inteiro.

Quem haveria de comprar este pacote? Quem haveria de fazer com que este coração se abrisse e deixasse entrarem as crianças sorridentes, os meninos bons...? Quem seria capaz de rasgar-me em versos sem rimas, sem métrica, sem poesia prévia?

Escondida atrás de papéis, palavras e cores vibrantes eu deixava os sentimentos tristes sem respirar pra ver se assim eles morriam. O que eu poderia fazer com o medo, a tristeza, o amor reprimido sem objeto para direcioná-lo..? Quem habitava este ser confuso e sem destino previamente traçado? 

De que será que faziam parte esses meus pedaços ocultos? O que aconteceu com eles no decorrer dos anos? Eles não saíram de lá. Terão morrido? Terei conseguido assassiná-los? E se hoje o que me move não for mais o que me comove? Se o coração no peito não for mais carne, for outra coisa...

Corre em minhas veias sangue quente e vermelho, sangue de gente que ri e chora! Gente que sente medo e que caminha assim mesmo... Gente que tem uma estrada sob os pés, um céu imenso sobre a cabeça e milhares de sonhos sendo plantados pelo caminho.... às margens da estrada... 

O ontem e o amanhã não importam. Estou envolvida eternamente no hoje, como quem se depara com o espelho e ali vê a paisagem em movimento como numa janela de trem... Tudo é novo e lindo, tudo é cor e tudo se mostra por si e não por mim... e ainda assim eu estou ali, no centro! 

Talvez eu tenha que aprender comigo mesma o que o mundo não consegue transpor... Eu não sou mais a menina e isso é tão assustador quanto encantador!

Minhas ausências não me ocupam tanto espaço e umas pessoas apareceram para me enfeitiçar. 'Tem certas amizades que mais parecem um amor que se esqueceu de acontecer' não é mesmo..? E eu tenho uns amores pendentes que me ampliam o sorriso quando aparecem na janela e invadem meu espelho.

O sangue queima nas minhas veias, o calor acelera o coração e molha o corpo de carícias por dentro e por fora....Esses meus amores desencontrados me aquecem e fazem chover gotas de chocolate dentro de mim... gomas comestíveis, licores, vapores, odores.... É como alguém que se permite ser alimento quando preciso... e eu realmente adoro comer e ser comida!

Guardo em mim hoje a menina que fui, a mulher que me habita e a senhora que conduzirá com suas mãos envelhecidas o destino de meus dias entre cores, dores e amores... Eu e as todas que me habitam, somos seguidoras de um sistema que não nos permite sonhar! E de que matéria poderíamos ser senão de sonhos, de encantamentos e de feitiços?! 




Vivem dentro de mim uns sentimentos tortos... Circulam pelo meu presente umas cores velhas desbotadas e outras novas... E a magia que transpassa minhas partes escondidas cobre minha menina com véus e com guarda-chuvas que guardam as gotas mais preciosas e criam em meu peito uma poça atemporal.


Afinal, apesar de tudo, sou ela, e sou também aquela envelhecida que ainda não chegou. Somos uma sequencia ilógica dividida em uma infinidade de dias, mágicos ou não, acumulados uns sobre os outros através dos tempos, costurados pelos fios dourados de uma mesma essência!



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

LOUCA

Loucamente
Mente louca
Mente, tão louca.

Um pé no chão (só um)
as mãos pra cima enlaçadas no peito
e a cabeça no mundo da lua!


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

POESIA

Revirando poesias antigas, eis que me deparo com uma criação coletiva envolvendo um grupo muito familiarizado que compartilhou de uma fertilidade de ideias incrível nas mesas da pamonharia, ali do ladinho do Campus II da Universidade Federal de Goiás - UFG



POESIA

Nada, nada, o meu si não está disposto à poesia
Mas a palavra me hipnotiza, me desnuda
Ainda não veio, não estou inspirada hoje
Zap, 7 Copas, um truco agora
E eu tenho um quatro perfeito

- O meu Zap tá seco
- Impossível perder com 7 Copas
- Mas tem hora que não rende, não rende
- Ai, o jogo da vitória me derrota
- RITINHAAA!!! - Pausa pra pedir uma cerva!

(Co-autores: André Bragança, Carolina Gobbi, Liz Pimentel e a saudosa Luciana Sussuarana)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

BASTA!

Basta de ti
Basta de mim
Basta de nós
Basta de ti sem mim
Basta de mim sem ti
Basta de nós sem nós

Nossas pernas enlaçadas
amarradas, aos nós
Meus fios revoltos por ti
Teus rios correndo por mim
Nossos lagos num oceano

Basta de singular
Basta de desengano

Não mais só meus dedos brincando
Agora seus dedos por engano
e meus dedos, te explorando

Basta de pouco zelo
Basta de tanta farsa
Basta de tanto tempo
Agora deu! Agora basta!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

sábado, 25 de janeiro de 2014

O óbvio

Somos água de chuva empoçada na lama cinza do cotidiano. O tédio mora no mesmo:

O mesmo velho colchão... mesmo travesseiro...  mesmo cobertor... mesmo pijama... o mesmo programa de tv na madrugada pra tentar driblar a insônia - mais uma vez sem sucesso!


Os mesmos sapatos... mesmo café da manhã apressado... o mesmo olhar fixo no chão do elevador pra não ter q falar com o vizinho... o mesmo "bom dia" desinteressado pro colega de trabalho... 


A mesma expectativa de algo novo posta sobre os mesmos velhos hábitos!


A mesma sensação de rejeição quando aquele beijo demora demais e acaba não acontecendo (pelo menos ainda)... Enfim, o mesmo coração partido que tava lá desde o último amor findo... as mesmas decepções pelos mesmos velhos assuntos, e ainda assim, a mesma ansiedade fazendo o coração pular no peito quando um sorriso nos faz brilharem os olhos...


São os mesmos sentimentos, os mesmos comportamentos e as mesmas expectativas... como é que podemos esperar algo novo após a repetição incessante das mesmas ações???


E se de repente as coisas começassem a ser diferentes? E se algo atravessasse o óbvio e nos desse uma palmada na cara??? Nós iríamos revidar?


E se corrêssemos? Corrêssemos até não termos mais pernas... Se corrêssemos rasgando em nós as certezas..? saltando paradas obrigatórias..? seguindo além do nosso destino..?


E se seguíssemos como um rio que corre pro mar e sua lição, mais que chegar ao mar, é correr, sem parar, sem interromper seu percurso por causa de pedras ou de quedas..?


E se essa fosse a função de minhas pernas? de meus pensamentos? Correr sem questionar ou sem contar com a chegada. Apenas para atravessar tudo aquilo que se me coloca diante dos olhos....


É só quando conseguimos olhar diretamente para os olhos do óbvio que podemos ver que hoje NÃO é o MESMO dia de ontem. É nos despindo do que desejamos que percebemos que estamos sempre ganhando presentes do dia-a-dia:

É o mesmo colchão, mas a noite é única, e estes últimos sonhos lindos, também...

Um sonoro "BOM DIA!" no elevador me faz observar que o vizinho deixou uma linda barba cerrada...

Um cappuccino logo pela manhã pode agitar e colorir o ambiente de trabalho, e fazer as horas voarem como meus cabelos ao vento...

Deixar de esperar aquele sorriso pode me mostrar o brilho nos olhos de alguém que me observa sorrir e cantarolar...

Há uma infinidade de sentimentos esperando para imprimir alguma magia em nossas vidas se nós apenas olharmos pra fora, abrindo nossas portas e janelas e deixando a vida entrar enquanto corremos...

Eu corro!!! Corro do comum. Corro de encontro ao que se esconde no óbvio, para assim ganhar cores e olhos novos!!!


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Fascínio

"I'm here with chicken, chicken alive."
Um pensamento estrangeiro me invade na tarde vazia. Tarde nostálgica.
Galinhas andam pelo jardim ensinando seus pintos a subirem nas árvores para dormir.
No canteiro, flores vermelhas furtam cores amarelas, verdes e azuis.
O pôr do sol no horizonte é uma poesia perfeita e muda, que me toca profundamente.
Certos sentimentos exercem alguma fascinação sobre mim...

Fascinação: "teu olhar, tonto de emoção", em meu corpo-luz. Sedução!
Me faz lembrar dos contos de fadas que nunca vou viver.
Um príncipe-sapo... Uma princesa controversa... Cores tortas..!
Um açougueiro!! Sangue, muito sangue!!!
Uma história de amor é assassinada e vendida em partes.
Picanha, coxão duro, costelinha... Peito!

A morte não cai bem na fantasia... Wonderland!
...um garoto furta-cor que só existe no transe da menina cinza.
Cinza máscara! Cinza faz de conta que não me vê.
Muitas cores... Cores para furtar debaixo da roupa cinza...
...cores, mil cores ela vê nos dois espelhos que lhe despem.
Nudez difícil. Linda e incrivelmente esclarecedora.

Toda uma paleta de cores oculta!
Cores vivas, vibrantes, tímidas, mas com uma infinidade inesperada de tons.
Uma tarde tranquila, um alaranjado pôr do sol de quase Cerrado e
a luz de uma estrela tropical embalada por estrangeirismos.
"Cash! Could solve a lot of problems."
Mas acho que a luz queima nos corações sem pensar nisso.

Luz não pensa, brilha!
Brilha, irradia e reflete afastando sombras e fantasmas!
Brilha como os anjos que enfeitiçam os sonhos!
O sorriso do gato de Alice brilhando no céu quando a noite cai.
Banhando a terra de magia e de sentimentos lunares (Lunáticos?).
Que os loucos sejam louvados. Eles não têm vergonha de ser felizes!!!




segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Através dos Tempos

Tenho um acordo com meu passado, nem ele pensa em mim, nem eu perco meu tempo tentando resgatá-lo!

Foram anos de diálogo e de acusações, culpas e lágrimas, alguns sorrisos também, e umas gargalhadas, antes de chegarmos a este acordo. E foi bom: Nem eu fico revirando e cutucando ele nem ele insiste em me assombrar!

Alguns fantasmas por vezes me visitam e conversamos um pouco, ou discutimos... todavia sempre posso saber que serão breves visitas. Eles não me pertencem, nem ao meu presente... Sou eu quem os permito! Pode parecer um pouco triste, entretanto sei que eles também sentem solidão. Acabamos por nos consolar.

Tenho também anjos que vêm me ver. Alguns do passado, mas os mais frequentes são os do presente. Carrego um carinho especial por aqueles que perduram através dos tempos. São pontos de luz em meu caminho, que me expõem às minhas próprias cores de estrela.

Mesmo assim, só quem dialoga comigo de fato é o Presente, esse lindo, ligeiro, intenso e movimentado presente. Por vezes até sereno, muitas vezes agitado, às vezes desconhecido, noutras, deliciosamente comum, pra variar, e em alguns momentos, nem comum nem delícias, simplesmente meu tempo. Tenho nele tintas, pincéis, carvão, espátulas, todo o material que quiser usar para desenhá-lo no que ainda existir de espaço nu...

Digo no que houver de "espaço nu", porque nele há cores, manchas e marcas de passado. umas mais intensas e outras sombreadas, lembrando que por ali atravessaram alguns corações. Mesmo assim, há sempre um espaço a colorir porque o futuro vem acrescentando mais folhas brancas para serem construídas no decorrer de um tempo que só existe quando chega e acontece.

Meu futuro é um senhor desconhecido que nunca encontro e a quem às vezes dou ouvidos. É uma pintura em movimento contínuo que há algum tempo descobri que nem sempre serei capaz de coordenar. Ainda assim, em presente, gosto de me encher de tinta e preparar vários pincéis diferentes pra poder criar texturas interessantes e imagens novas incríveis. Ao final, meu pincel não faz a tela do futuro, eu pinto meu sonho ciente de que ele talvez desbote um pouco ao se tornar realidade

Pinto meu futuro com as cores radiantes que me trazem os anjos, afinal como ele ainda não é, pode ter as cores e texturas que eu bem escolher. Quero as melhores, as mais brilhantes, as mais vivas, em composições mágicas! Assim posso ser conto de fadas de vez em quando... Só pra não deixar as fumaças de um passado triste ou de um infortúnio inesperado me acinzentarem os sonhos!

Passado? Presente? Futuro?




Do passado: a lição, o aprendizado, o amadurecimento forçado.
Do presente: a atenção, o foco, o exercício diário da atitude, agora calculada.
Do futuro: a tela mágica que muda de cor todo dia pelas cores dos meus pincéis, o conto de fadas, e a vontade interminável de tornar real o belo sonhado.

Que me venham novas cores!

domingo, 15 de dezembro de 2013

3º Ensaio sobre as cores: Cores vivas I

Tem umas cores que ficam por mais tempo, que brilham mais, que deixam tudo mais vivo. E que nem precisam ser cores claras... 
Cor de chocolate! Cor de morango com chocolate.....




Uhmm..! Variações de sabor com intensidade de quase provocação! 
Aquele cheirinho adocicado de fruta fresca, o gosto um tanto acre por dentro com um toque lascivo de pecado... o verde: lembrando que marrom é terra fértil, que vida tá em todo lugar, e que vermelho é energia que pulsa!

Bum bum bum!

Cores vivas, cores fortes, cores que inspiram o lado mais bonito de cada encantamento.
Ter uns vermelhos tom de pôr do sol é carregar em tinta um pouco de amor pra distribuir em gotas...

Ah, esse mundo de colorir com magia! 
Umas cores tomam vida e brincam de ciranda em matizes contagiantes!!!

Blam blem blum! 

Cores encarnadas, com gosto de frutas, invadem as telas por onde transito deixando rastros de sabor... ao tempo que marcam o caminho encantado.
Tudo se constrói na calmaria do vento que nasce das asas da borboleta aprendendo a voar!

Pó de pirlimpimpim!

Por onde ela passa, uma trilha luminosa se faz e cores mágicas tomam conta de mim! Estas cores vibram, ultrapassam, saboreiam e são saboreadas em caminhos que se atravessam no infinito.

Paralelas de brilho imenso.

Tão certo quanto não se cruzam elas nem vão nem ficam, é como se sempre ali estivessem como se sempre voassem juntas. 
Elas mudam de cor quando se percebem.
É como se, enquanto borboletas, uma se visse nas asas da outra e uma se visse nas cores vivas da outra e isso lhes iluminasse... como se essa luz que sempre lhes pertenceu voltasse-lhes com cheiro de flores...

Cores de alegria e prazer... tons de vida com sabor... tintura que toma conta e que furta-cor pra somar!

Vermelho é vida que contagia e que traz risadas, que enfeita anjos sem asas e que faz amanhecer.
Raio de sol que aquece o coração, gosto de morango que cresce na terra e sai dela com gotas de chocolate pra ver o sonho envolver... só pra fazer sonhar!

Cores vivas... Taí uma metáfora em flor: Morango com chocolate! !

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

só de brincadeira...




busco-me inteira nos pedaços
que multiplico em palavras cruzadas
palavras de jogos de tabuleiro
brinquedos pra compartilhar

mania de esconde-esconde
em noites escuras nada sombrias
sorrisos gargalhando em segredo
e as pontas dos dedos roubando delícias

olhar maroto, fotos, gemidos
palavras perdidas: vocabulário
palavras benditas: verbos obscenos
...e nossos corpos se contorcendo

ciranda de roda, samba no pé
movimentos lúbricos de bailarina
bambolê em corpo de mulher
não é brinquedo de menina

contos, crônicas, roteiros
histórias incríveis pra contar
corpos que não se pertencem
entrelaçados em rodopios pelo ar






quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Minha menina triste...

          Entre todas essas mulheres que me povoam, tenho algumas mais presentes e mais intensas, tenho outras que se mostram mais e há em mim umas poucas que se escondem incessantemente. 
Nem por isso, entretanto, elas são menos fortes. Talvez sua força até assuste, porque faz lembrar que elas estão lá. 
E tem mais: elas nem sempre são bonitas... 

Minhas bonitas gostam de ser vistas! 

Essas, desconstruídas pelos acontecimentos, se recolhem entre ruínas, com cicatrizes e medo... 
Olhos de bicho perdido. Mãos secas, grossas, ágeis por precisarem ser rápidas. Cabelos arrepiados enrolados num quase nó. A pele meio parda, queimada. Os ombros encolhidos, o corpo, ora esguio, experimentando curvas perigosas...

Uma dessas pequenas, em especial, traz como carma, a memória... 
Pobre menina crescida..! Carrega todas as marcas dos caminhos mal escolhidos. Mal se lembra dos sorrisos. A boca espremida não experimenta há muito os músculos das maçãs. 
Em seus olhos, as meninas andam sempre penduradas tentando segurar, em grandes bolsas, as lágrimas que correm sem parar, criando uma geografia interessante na pele seca do rosto: terra rachada, antes cortada pelo bafo frio e por palavras afiadas. Agora suas frestas servem de leito para a água quente que desce!

É sua função carregar o peso! É seu fardo, sua bagagem inevitável, é o que ela acredita que tem que levar, é pra isso que acha que veio: pra ser o esteio de toda a dor, de toda a mágoa, de todas as feridas que uma alma pode carregar... 
Missão árdua pra uma menina assumir!

Volta e meia posso ouvir seus gritos, cansada de se reprimir, cansada de calar aos solavancos da vida. Grita alto. Cala os outros pensamentos e suas meninas bombardeiam os olhos de cá...

Depois cala novamente, absorta, concentrada em reunir todas as feridas num ponto, decidida a carregar todas as mágoas para que assim, nós, as outras todas que me povoam, possamos exibir a alegria, o sorriso, a graça, a força, a virtude, a leveza... e tentar, mesmo que nem sempre funcione, proteger aquela tão triste pequena, que é também um pedaço de nós. 


Ela faz cada sorriso valer mais. Ela faz nossos passos curtos e ritmados flutuarem na velocidade do amor. Faz nossas guerreiras saírem em Cruzadas quase sagradas, em busca de algo um pouco diferente de um copo, mas em que caberiam infinitas lágrimas e a menina triste enfim poderia cuidar dos cabelos e avermelhar aquelas maçãs, poderia ganhar cores e deixar o cinza pro céu dos dias nublados em que a tristeza da natureza nos banha e lava nossa alma de toda e qualquer sujeira acumulada pelo tempo...

Minha menina triste é a detentora de todas as marcas mas é por ela, e justamente por sua força, que todas as outras que me povoam se fazem fortaleza!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

GRITO



Grita dentro dele
Ele não escuta
não grita junto
Ele cala!

Cala desesperado
Cala aos olhos arregalados
de um bicho invadido

Grita e berra tão alto
Tão louco, tão frouxo
Tão dentro de tudo
que não lhe cabe
que não lhe cobre

E o frio de dentro mata
E nase mudo
E nasce o silêncio!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

2º Ensaio sobre as cores: Cores mortas I

      

                  É muito comum ser tomado por um sentimento desagradável. Isso faz a gente mudar de cor e tomar nuances indesejadas. Cor de vômito, amarelo-escárnio emaranhado em tons de verde-catarro. Quase da cor da tuberculose. Consegue imaginar? Agora imagina as pessoas que te trataram com egoísmo, despeito e cinismo mergulhadas numa piscina desses fluidos viscosos... Dá até um prazerzinho momentâneo, não?!

               Isso acontece porque você também é um pouco mau, meu jovem, minha querida..! Você também é um pouco verde-musgo-amarelo-pálido. Ter cores mortas faz parte de qualquer paleta e somos muitas tonalidades para conseguirmos sobreviver aos mesmos traços mal desenhados se repetindo incessantemente no calendário de colorir.

               Difícil manter as cores antigas ou brilhar novas em situações  de clássica censura de matizes... Talvez um vermelho-ira tome conta inicialmente, assumindo tons roxo-esfumaçados pra não cortar gargantas! Seguindo, então, para tons amarronzados de degeneração, até alcançar os tons verde-catarro-vomitado-malhado-de-amarelo-doente que envolvem o corpo e o ambiente numa dança interminável de ressentimentos.

               Desagradável se imaginar dançando infinitamente nessas cores. Elas se formaram ao seu redor quando deixou o outro, o pálido, o sem cor, o sem brilho, o pequeno e inferior espírito de porco, te descolorir. 

          É nessa hora que você escolhe, e sabiamente se põe a correr, primeiro, e depois a andar longamente, e por fim se acalma, se desprende do árido verde e se depara com o azul, com a tranquilidade eterna do céu: o brilho contagiante do sol em horários de chegada e partida, o dourado-encarnado-róseo-encantador que domina antes da escuridão roxa quase preta que fica do outro lado do dia. 

               E aí você percebe que de tantas cores no mundo, de tantas tonalidades diferentes, é uma escolha ficar mergulhado no verde-amarelo-escarrado e, assim, abandona a cor que não lhe faz parte da paleta. Sua paleta tem a infinidade de cores que o seu coração mandar! Agora, se ele te manda ser um sem-cor... Isso também faz parte da dança. Só peço que não me  chame pra dançar! 

          Tenho minhas próprias cores mortas...!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A LUZ



        Aquela mocinha vira muitas coisas, mas nunca brincava, nunca sorria, era estática. Tudo sentia mas não era e não falava, engolia e olhava para dentro. Fora: cinza, preto, branco e, de vez em quando um pálido ou sombrio sépia em tons de tristeza. 

       Ignobilmente, por isso, ninguém a incomodava, ninguém a escolhia para brincar nos tempos de escola, mas também ninguém lhe puxava os cabelos. O que ninguém também enxergava era que por dentro ela era só cor e luz, e formas encantadas de um mundo muito mais envolvente que aqueles tons de fumaça acinzentados. 

     De dentro, brinquedos de faz de conta, amigos, namorados, bolas e bexigas e flores, muitas flores de todas as formas e tamanhos e cores, e vivas, e muitos sóis, porque um só é pouco para tanta luz. Chuva lá dentro, só de coisas estranhas, quer dizer, estranhas do lado de fora, porque de dentro o normal é chover caramelo, mel... pra comer com partes exóticas!

     Vermelhos aquecem seu corpo brincando de dedilhar enquanto os mais suaves tons de violeta e lilás lhe acariciam os negros cabelos, em fitas de cetim e tranças rendadas. Os sapatos de boneca rubros dizem o caminho e ganham fitas para subirem-lhe as pernas. O vestido poá ganha saias e mais saias e a pequena mulher menina, de repente, vira bailarina rodopiando pelos caminhos tortos cheios de borboletas para lhe voar pelo estômago e por umas partes impróprias.

      Volta e meia entre rodopios e banhos de caramelo ela esbarra com um moço bonito ali, um moço de olhos profundamente líquidos e de umas nuances encantadoras. Com uma espada embainhada e muitos sonhos voando como pássaros em volta de seus cabelos revoltos e macios como fios de seda ao vento. 
Ela adora tocar-lhe os cabelos, quase como quem comete um pequeno delito..!

     Ele não é dali, não pertence a seus sonhos, ele carrega todo um mundo próprio de dragões, torres e calabouços. E sóis, e luas e a luz encantada que atravessa os sonhos. É onde ela se reconhece, é onde se entrecruzam suas alegrias e suas vontades e se faz magia. Ali o caramelo brilha num suor saboroso. Ali as mãos peregrinam por caminhos montanhosos. Churros e maçãs do amor com gosto de beijos. Discos voadores e bolhas de sabão dão vida à paisagem. E a magia se faz também um pouco pela importância. Qual?

     Churros, maçãs do amor, bolhas de sabão e até discos voadores são fáceis de se encontrar por ali. Beijos também não são tão raros, mas o garoto mágico, o garoto da espada, ele só aparece quando. E quando é o tempo cruel. Quando é o tempo que não manda, que nada prevê, é o tempo que acontece e deixa marcas tatuadas de singularidade. O sabor inesquecível que as pessoas predestinadas reconhecem uma na outra. 

     Só que ali ela também sabe que, apesar de ser senhora da paisagem, é impotente para tudo além das cores e do mel, do caramelo... O gosto, que não é só dela, não pode ser alcançado sem ele. O garoto não vem quando ela quer, também não vem só quando ela ali está. Eles se perdem... Labirintos os guiam por tramas onde às vezes o sim é não, o não talvez, e o talvez traz um meio de caminho que pode durar pra sempre ou acabar num vazio de alma.

     Ali está sua dor e sua alegria, ali mora seu momento e ela se renova e se desconstrói se necessário. É justamente em sua falta de controle que ela encontra sua essência. É assim, sabendo que há algo que ela não domina, num mundo que poderia ser só seu, que ela percebe que em algum momento deixou ele entrar, lhe deu a chave. Ninguém mais povoa aquele lugar a não ser que seja fruto de sua imaginação, mas aquele moço bonito... 
         
     Ele é real, ele vai e vem, e ele era um pouco sua criação também... quando a amava e a partia. Seu amor e seu amigo. Seu brinquedo de faz de conta que aconteceu mas que não foi de encontro ao seu futuro. Ele se emaranhou em seu presente e dali não saiu... nem ficou... Ele se tornou seu meio, entre o cinza costumeiro e a energia celestial do lilás: a luz!