CANTO E LÁGRIMA: VIDA INTENSA E NÃO REGIDA

"Regida demais, intensa de menos. Lágrimas engolidas pelos cantos da alma que não tem tempo pra sorrir, chorar, sentir. Mãe, irmã, filha, amante, dona de casa, esposa, profissional exemplo..." Relatos das várias mulheres que se escondem dentro de cada mulher, seu mundo, intocável para aqueles que só enxergam com os olhos da carne.

domingo, 15 de dezembro de 2013

3º Ensaio sobre as cores: Cores vivas I

Tem umas cores que ficam por mais tempo, que brilham mais, que deixam tudo mais vivo. E que nem precisam ser cores claras... 
Cor de chocolate! Cor de morango com chocolate.....




Uhmm..! Variações de sabor com intensidade de quase provocação! 
Aquele cheirinho adocicado de fruta fresca, o gosto um tanto acre por dentro com um toque lascivo de pecado... o verde: lembrando que marrom é terra fértil, que vida tá em todo lugar, e que vermelho é energia que pulsa!

Bum bum bum!

Cores vivas, cores fortes, cores que inspiram o lado mais bonito de cada encantamento.
Ter uns vermelhos tom de pôr do sol é carregar em tinta um pouco de amor pra distribuir em gotas...

Ah, esse mundo de colorir com magia! 
Umas cores tomam vida e brincam de ciranda em matizes contagiantes!!!

Blam blem blum! 

Cores encarnadas, com gosto de frutas, invadem as telas por onde transito deixando rastros de sabor... ao tempo que marcam o caminho encantado.
Tudo se constrói na calmaria do vento que nasce das asas da borboleta aprendendo a voar!

Pó de pirlimpimpim!

Por onde ela passa, uma trilha luminosa se faz e cores mágicas tomam conta de mim! Estas cores vibram, ultrapassam, saboreiam e são saboreadas em caminhos que se atravessam no infinito.

Paralelas de brilho imenso.

Tão certo quanto não se cruzam elas nem vão nem ficam, é como se sempre ali estivessem como se sempre voassem juntas. 
Elas mudam de cor quando se percebem.
É como se, enquanto borboletas, uma se visse nas asas da outra e uma se visse nas cores vivas da outra e isso lhes iluminasse... como se essa luz que sempre lhes pertenceu voltasse-lhes com cheiro de flores...

Cores de alegria e prazer... tons de vida com sabor... tintura que toma conta e que furta-cor pra somar!

Vermelho é vida que contagia e que traz risadas, que enfeita anjos sem asas e que faz amanhecer.
Raio de sol que aquece o coração, gosto de morango que cresce na terra e sai dela com gotas de chocolate pra ver o sonho envolver... só pra fazer sonhar!

Cores vivas... Taí uma metáfora em flor: Morango com chocolate! !

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

só de brincadeira...




busco-me inteira nos pedaços
que multiplico em palavras cruzadas
palavras de jogos de tabuleiro
brinquedos pra compartilhar

mania de esconde-esconde
em noites escuras nada sombrias
sorrisos gargalhando em segredo
e as pontas dos dedos roubando delícias

olhar maroto, fotos, gemidos
palavras perdidas: vocabulário
palavras benditas: verbos obscenos
...e nossos corpos se contorcendo

ciranda de roda, samba no pé
movimentos lúbricos de bailarina
bambolê em corpo de mulher
não é brinquedo de menina

contos, crônicas, roteiros
histórias incríveis pra contar
corpos que não se pertencem
entrelaçados em rodopios pelo ar






quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Minha menina triste...

          Entre todas essas mulheres que me povoam, tenho algumas mais presentes e mais intensas, tenho outras que se mostram mais e há em mim umas poucas que se escondem incessantemente. 
Nem por isso, entretanto, elas são menos fortes. Talvez sua força até assuste, porque faz lembrar que elas estão lá. 
E tem mais: elas nem sempre são bonitas... 

Minhas bonitas gostam de ser vistas! 

Essas, desconstruídas pelos acontecimentos, se recolhem entre ruínas, com cicatrizes e medo... 
Olhos de bicho perdido. Mãos secas, grossas, ágeis por precisarem ser rápidas. Cabelos arrepiados enrolados num quase nó. A pele meio parda, queimada. Os ombros encolhidos, o corpo, ora esguio, experimentando curvas perigosas...

Uma dessas pequenas, em especial, traz como carma, a memória... 
Pobre menina crescida..! Carrega todas as marcas dos caminhos mal escolhidos. Mal se lembra dos sorrisos. A boca espremida não experimenta há muito os músculos das maçãs. 
Em seus olhos, as meninas andam sempre penduradas tentando segurar, em grandes bolsas, as lágrimas que correm sem parar, criando uma geografia interessante na pele seca do rosto: terra rachada, antes cortada pelo bafo frio e por palavras afiadas. Agora suas frestas servem de leito para a água quente que desce!

É sua função carregar o peso! É seu fardo, sua bagagem inevitável, é o que ela acredita que tem que levar, é pra isso que acha que veio: pra ser o esteio de toda a dor, de toda a mágoa, de todas as feridas que uma alma pode carregar... 
Missão árdua pra uma menina assumir!

Volta e meia posso ouvir seus gritos, cansada de se reprimir, cansada de calar aos solavancos da vida. Grita alto. Cala os outros pensamentos e suas meninas bombardeiam os olhos de cá...

Depois cala novamente, absorta, concentrada em reunir todas as feridas num ponto, decidida a carregar todas as mágoas para que assim, nós, as outras todas que me povoam, possamos exibir a alegria, o sorriso, a graça, a força, a virtude, a leveza... e tentar, mesmo que nem sempre funcione, proteger aquela tão triste pequena, que é também um pedaço de nós. 


Ela faz cada sorriso valer mais. Ela faz nossos passos curtos e ritmados flutuarem na velocidade do amor. Faz nossas guerreiras saírem em Cruzadas quase sagradas, em busca de algo um pouco diferente de um copo, mas em que caberiam infinitas lágrimas e a menina triste enfim poderia cuidar dos cabelos e avermelhar aquelas maçãs, poderia ganhar cores e deixar o cinza pro céu dos dias nublados em que a tristeza da natureza nos banha e lava nossa alma de toda e qualquer sujeira acumulada pelo tempo...

Minha menina triste é a detentora de todas as marcas mas é por ela, e justamente por sua força, que todas as outras que me povoam se fazem fortaleza!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

GRITO



Grita dentro dele
Ele não escuta
não grita junto
Ele cala!

Cala desesperado
Cala aos olhos arregalados
de um bicho invadido

Grita e berra tão alto
Tão louco, tão frouxo
Tão dentro de tudo
que não lhe cabe
que não lhe cobre

E o frio de dentro mata
E nase mudo
E nasce o silêncio!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

2º Ensaio sobre as cores: Cores mortas I

      

                  É muito comum ser tomado por um sentimento desagradável. Isso faz a gente mudar de cor e tomar nuances indesejadas. Cor de vômito, amarelo-escárnio emaranhado em tons de verde-catarro. Quase da cor da tuberculose. Consegue imaginar? Agora imagina as pessoas que te trataram com egoísmo, despeito e cinismo mergulhadas numa piscina desses fluidos viscosos... Dá até um prazerzinho momentâneo, não?!

               Isso acontece porque você também é um pouco mau, meu jovem, minha querida..! Você também é um pouco verde-musgo-amarelo-pálido. Ter cores mortas faz parte de qualquer paleta e somos muitas tonalidades para conseguirmos sobreviver aos mesmos traços mal desenhados se repetindo incessantemente no calendário de colorir.

               Difícil manter as cores antigas ou brilhar novas em situações  de clássica censura de matizes... Talvez um vermelho-ira tome conta inicialmente, assumindo tons roxo-esfumaçados pra não cortar gargantas! Seguindo, então, para tons amarronzados de degeneração, até alcançar os tons verde-catarro-vomitado-malhado-de-amarelo-doente que envolvem o corpo e o ambiente numa dança interminável de ressentimentos.

               Desagradável se imaginar dançando infinitamente nessas cores. Elas se formaram ao seu redor quando deixou o outro, o pálido, o sem cor, o sem brilho, o pequeno e inferior espírito de porco, te descolorir. 

          É nessa hora que você escolhe, e sabiamente se põe a correr, primeiro, e depois a andar longamente, e por fim se acalma, se desprende do árido verde e se depara com o azul, com a tranquilidade eterna do céu: o brilho contagiante do sol em horários de chegada e partida, o dourado-encarnado-róseo-encantador que domina antes da escuridão roxa quase preta que fica do outro lado do dia. 

               E aí você percebe que de tantas cores no mundo, de tantas tonalidades diferentes, é uma escolha ficar mergulhado no verde-amarelo-escarrado e, assim, abandona a cor que não lhe faz parte da paleta. Sua paleta tem a infinidade de cores que o seu coração mandar! Agora, se ele te manda ser um sem-cor... Isso também faz parte da dança. Só peço que não me  chame pra dançar! 

          Tenho minhas próprias cores mortas...!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A LUZ



        Aquela mocinha vira muitas coisas, mas nunca brincava, nunca sorria, era estática. Tudo sentia mas não era e não falava, engolia e olhava para dentro. Fora: cinza, preto, branco e, de vez em quando um pálido ou sombrio sépia em tons de tristeza. 

       Ignobilmente, por isso, ninguém a incomodava, ninguém a escolhia para brincar nos tempos de escola, mas também ninguém lhe puxava os cabelos. O que ninguém também enxergava era que por dentro ela era só cor e luz, e formas encantadas de um mundo muito mais envolvente que aqueles tons de fumaça acinzentados. 

     De dentro, brinquedos de faz de conta, amigos, namorados, bolas e bexigas e flores, muitas flores de todas as formas e tamanhos e cores, e vivas, e muitos sóis, porque um só é pouco para tanta luz. Chuva lá dentro, só de coisas estranhas, quer dizer, estranhas do lado de fora, porque de dentro o normal é chover caramelo, mel... pra comer com partes exóticas!

     Vermelhos aquecem seu corpo brincando de dedilhar enquanto os mais suaves tons de violeta e lilás lhe acariciam os negros cabelos, em fitas de cetim e tranças rendadas. Os sapatos de boneca rubros dizem o caminho e ganham fitas para subirem-lhe as pernas. O vestido poá ganha saias e mais saias e a pequena mulher menina, de repente, vira bailarina rodopiando pelos caminhos tortos cheios de borboletas para lhe voar pelo estômago e por umas partes impróprias.

      Volta e meia entre rodopios e banhos de caramelo ela esbarra com um moço bonito ali, um moço de olhos profundamente líquidos e de umas nuances encantadoras. Com uma espada embainhada e muitos sonhos voando como pássaros em volta de seus cabelos revoltos e macios como fios de seda ao vento. 
Ela adora tocar-lhe os cabelos, quase como quem comete um pequeno delito..!

     Ele não é dali, não pertence a seus sonhos, ele carrega todo um mundo próprio de dragões, torres e calabouços. E sóis, e luas e a luz encantada que atravessa os sonhos. É onde ela se reconhece, é onde se entrecruzam suas alegrias e suas vontades e se faz magia. Ali o caramelo brilha num suor saboroso. Ali as mãos peregrinam por caminhos montanhosos. Churros e maçãs do amor com gosto de beijos. Discos voadores e bolhas de sabão dão vida à paisagem. E a magia se faz também um pouco pela importância. Qual?

     Churros, maçãs do amor, bolhas de sabão e até discos voadores são fáceis de se encontrar por ali. Beijos também não são tão raros, mas o garoto mágico, o garoto da espada, ele só aparece quando. E quando é o tempo cruel. Quando é o tempo que não manda, que nada prevê, é o tempo que acontece e deixa marcas tatuadas de singularidade. O sabor inesquecível que as pessoas predestinadas reconhecem uma na outra. 

     Só que ali ela também sabe que, apesar de ser senhora da paisagem, é impotente para tudo além das cores e do mel, do caramelo... O gosto, que não é só dela, não pode ser alcançado sem ele. O garoto não vem quando ela quer, também não vem só quando ela ali está. Eles se perdem... Labirintos os guiam por tramas onde às vezes o sim é não, o não talvez, e o talvez traz um meio de caminho que pode durar pra sempre ou acabar num vazio de alma.

     Ali está sua dor e sua alegria, ali mora seu momento e ela se renova e se desconstrói se necessário. É justamente em sua falta de controle que ela encontra sua essência. É assim, sabendo que há algo que ela não domina, num mundo que poderia ser só seu, que ela percebe que em algum momento deixou ele entrar, lhe deu a chave. Ninguém mais povoa aquele lugar a não ser que seja fruto de sua imaginação, mas aquele moço bonito... 
         
     Ele é real, ele vai e vem, e ele era um pouco sua criação também... quando a amava e a partia. Seu amor e seu amigo. Seu brinquedo de faz de conta que aconteceu mas que não foi de encontro ao seu futuro. Ele se emaranhou em seu presente e dali não saiu... nem ficou... Ele se tornou seu meio, entre o cinza costumeiro e a energia celestial do lilás: a luz!

sábado, 23 de novembro de 2013

SONGES ET MENSONGES


CHEGOU DESPRETENSIOSO
UM SORRISO NOS OLHOS PÁLIDOS
NAS MÃOS, ELOS COM O PASSADO
MUITOS DEDOS PRA NÃO TOCAR (ME?)

A VOZ SUAVE, MACIA
UMAS PALAVRAS PRA ENCANTAR
NUM GRAMADO, UM DIA CLARO
UM QUENTE RAIO DE SOL
DESPIDO EM TONS DE LUAR

BOLHAS BRILHANDO NA TAÇA
OUTRAS BRINCANDO DE VOAR
ESTRELAS, MUITAS DELAS
E AS CORES E AS BORBOLETAS...
PERFUME DE FLORES NO AR

À NOITE, OS SONHOS A FANTASIA
SUOR BANHANDO O IMAGINÁRIO
MUITOS DEDOS POUCAS BOCAS
UMAS MENTIRAS MACIAS...
E TODO ESSE DESEJO... 
E TODA ESSA MAGIA...
E TODA ESSA POESIA!



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O Destino do Papel

Uma folha de papel branca, pura, limpa, estática sobre a mesa.
Aguardando a poesia, a gravura, o lápis de cor da menina, o giz de cera, a aquarela... Ou seria a impressão do contrato, do orçamento, do processo...

Essa mesma folha de papel, por um sopro distraído, foge ao seu destino e se curva ao vento. Vira pássaro vivo por um momento mágico, e sente toda a vida ao fugir do escritório, sobrevoar a poluição e se perder entre as folhas vivas do parque que fica ao lado.


Destino estranho para o papel... Podia ser guardado, ser lembrado...

Se jogou, se perdeu e vai ser esquecido e consumido por seu íntimo orgânico!




Uma flor de papel branca, pura, limpa, estática sobre a mesa!

Tem história, tem nela todos os movimentos daqueles dedos, daquelas mãos que delicadamente moldaram o papel para o sentimento mais puro, de trazer sorriso, de fazer carinho.
Dedos fortes, dedos masculinos, sensibilidade de artista mudo.
Dedos que tornaram coisa o papel e ele não voou.

A folha de papel branco sobre uma pilha inorgânica estática e triste pode, de repente, ganhar tinta e ser personagem de sua história: imagem, lenda. Pode ganhar fantasia: céus com várias luas e animais mais incríveis que os monolunáticos lobisomens...

Pode ter imagens inimagináveis destes seres mitológicos e ser interessante e valiosa e percorrer gerações. Pais e filhos compartilhando lendas e sagas plenas de ilustrações fantásticas e dimensões inalcançáveis em outras circunstâncias...

Uma folha de papel... folha simples, pura, cheia de vida sobre a mesa...

Vai virar flores, cores, grama, o pôr do sol, o beijo, o cheiro, o gosto e a textura...
Coisas que não são, mas que por não serem, são mais, e coisam mais... E tocam mais!






FINITO

E EIS QUE RASGA-ME O DESENCONTRO
JUSTO A MIM QUE PINTA TUDO SE FALTA COR
DEPAREI-ME COM A PALIDEZ:
CINZA BRINCANDO DE BRANCO

A PARTIDA - O LUTO - UNS TONS DE PRETO
VISITA RÁPIDA DE UM TEMPO-QUANDO
A ANGÚSTIA - O IMENSO VÃO NO PEITO
A TRISTE E SÉRIA EXPRESSÃO NO ROSTO

O ADEUS NA PARTIDA, INSIGNIFICANTE
QUASE TÃO NADA QUANTO O PRIMEIRO OI
O FECHO DE CICLO NUM DIA BRILHANTE
UM ADEUS TARDIO, O CORAÇÃO ERRANTE

TUDO VAZIO NAQUELE ROMANCE...
E AS CORES... AS CORES TEIMANDO POESIA!


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Pedaços de mim


As palavras correm pelas minhas veias quase mais intensas que os sentimentos!

Não sei de onde vim, não sei pra onde vou, nem quando. Vivo no meio.

Alguns lugares me contêm... Outros me convêm!
Me reconheço nas curvas do caminho, nas ruas por onde perambulo.
Há lugares aos quais sempre vou pertencer.

Deixo um pedaço de mim e carrego parte de tudo que me atravessa, e assim vou me compondo em peças de montar.


Parece que sempre estive lá, às vezes. 

Noutros momentos sinto que nunca cheguei, mas que desde sempre era para estar.
Vivo o reconhecimento diário do desconhecido, do inesperado, do escrito nas estrelas e improvável....
Encontro pessoas pelo caminho, que sempre estiveram em meu ser, mesmo inéditas....

Marias, Joões.... Penélopes, Guilhermes... Todos eles são mais que nomes, mais que encontros de caminhos, todas as pessoas que me cruzam estão em mim, e me levam... 

Todos eles, todas elas, todos os chãos por onde pisei, todos os céus acima de mim... TUDO está em mim e lá também estou.... mas não nos temos!

Tenho os sentimentos, fortes ou não, antes inéditos e depois maiores e meio monótonos... Ironias de um caminho nunca antes imaginado, que aconteceu por acaso e que era, em si, o que tinha que ser! 


Conceitos e preconceitos me transformam em construção interminável.

O que era entulho deixa de ser e o que era tudo vira nada e mostra o valor dos anos, o caminho dos pés, o apoio das mãos, os sonhos do coração e a grandeza da alma menina. Mostrar, todavia, não diz, não junta peças... mostrar é espelho!

É no espelho que está a magia que os olhos dos outros não são capazes de ver.

O espelho é um portal, talvez uma janela, um olhar para a montagem e um ar de contemplação que volta, que não ousa juntar peças, mas que às vezes sai a reorganizá-las.

Onde me vejo de fato, não é no vidro refletor, me vejo onde me reencontro com quem nunca fui e com quem nunca me será.... 

Me vejo na dinâmica interativa dos caminhos tortuosos da vida, que a arte não consegue imitar.... 
Me reconheço num ser de novidades constantes e de composições, umas mais simples, outras mais complexas e todas com algo de inimitável, de inesperado, de encantador e único!

Me reconheço no ser que nasce de tudo que me contém, dos lugares a que pertenço, na novidade, na surpresa, no inédito que por vezes acompanha o monotonamente comum... 


É onde sempre estive, é meu paradoxo: sempre serei o que nunca ousei ser e SOU!



terça-feira, 12 de novembro de 2013

FLOR DO CERRADO


Uma frase no mato:
Nasce no mato uma flor vermelha!

Jorra de dentro a vontade
Coragem voa ao vento
se desfaz e cumpre seu breve tempo
Vida ao vento sem coragem

Muda tudo e vira bicho

Bicho anda come vive enfrenta 
luta cresce cuida ensina busca
e se pensa vira GENTE

Gente flor, Gente bicho
ao léu ao léu ao léu

Gente pensa sente ensina
acredita escolhe prepara cuida protege

Guarda dor e medo na caixinha e vai!
só com fé amor perdão
alma expande, cresce o coração
aura armadura pinta o mundo colorê...

***

Morrer doer lutar vencer
sorrir cair subir amar

Vai pro alto... Vai!!!
Solta a cabeça, abraça o coração e vai...

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

TERRA DO NUNCA

Inspirada na poesia em prosa de SER acabo de trazer em umas palavras sentimentos intraduzíveis, uma leitura sequencial pode ajudar a entender a essência, mas são ambos textos completos em sua simplicidade complexa..... Espero que te incomode e te dê prazer!



Nunca é coisa! Nunca é gente! Nunca é bicho! Também, o que poderia ser? Afinal, tudo que há carrega em si uma injusta teoria. Se não é na mente não há no mundo, mas mesmo quando o não do mundo o sim da mente vira o que não há e é! E por que não ser??

Aconteço no que não existe. Me afirmo. Me reconheço. Me seduzo nas linhas brilhantes do imaginário. 

Por onde caminho? Quem vai comigo? Que coisas há por aqui? Que cores há por aqui? Pode ser que não haja uma estrada... Pode ser que ninguém venha comigo... Pode ser que não haja coisas ou cores... 

Isso não importa! Quando vou, decido ir. O que não há eu mesma invento. E assim, é melhor que não haja!

Assim a amiga companheira pode filtrar sonhos com asas nos pés e voamos juntas para o Reino das Bolinhas de Sabão... O amor no peito pode ter os traços que eu desenhar, pode mudar quando eu escolher e furtar-me cores em seus olhos. Ele pode ser poeta..!

Os caminhos não são retos, eles curvam, sobem e descem para garantir olhos para todos os cantos. Cantos gigantes, outros minúsculos. 
Rios e cascatas me cruzam quando tenho sede ou calor. 
Cores invadem nuvens ora comestíveis ora camas voadoras que me levam quando canso... 
Frutas amadurecem aos meus olhos se tenho fome e no mesmo galho colho morangos amoras uvas e chocolate...

Se sinto frio, aqueço o sol. O mundo do nunca é gigante Pasárgada: Lá o que penso há e não existe o que entristeço!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

EU QUERO


Eu quero o riso e o sorriso
Quero o desencontro
Que traz o inesperado
Na forma doce de surpresa no caminho

Eu quero o grito e o sussurro
Quero o entrelaço 
Que junta corpos num só ato
Do jeito quente que brincam os impuros

Eu quero a fantasia e o real
Quero o abstrato
Na forma mágica de sonho
Na concretice da coisa-fato

Quero coisa onde fui bicho
Quero bicho onde fui gente
Quero gente onde fui coisa

Eu quero TUDO
Eu quero NADA
Eu quero ir e ficar
Quero sonhar sorrir dançar
Quero transcender
Quero transformar

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A hora do encantamento

ra quase meia-noite. A lua cheia tomava a cena num céu violeta. Uma mulher caminhava na rua vazia, testemunhava o espetáculo de camarote. Cabelos muito escuros unidos em uma longa trança colada na cabeça. Alguns fios dançando esvoaçantes, fugindo das regras do penteado como ela gostaria de ousar com as regras de sua vidinha correta demais.
                 Um vestido cinza azulado mostrava discretamente as linhas dos seios não tão fartos e marcava-lhe a silhueta de mulher bem feita. Exibia quase metade de suas longas pernas um tanto finas, que terminavam em um salto alto, quase da cor do céu, que lhe cobria os pés e chamava o olhar para seus passos leves, como se flutuasse...     
                 Há tempos que tinha adoração por sapatos e por aquela cor sempre fora fascinada - dos sapatos e do céu, que parecia carregar em sua essência propriedades mágicas. E naquela noite em especial algo aconteceria que a mudaria para sempre.
                 Caminhando distraidamente, o olhar para o alto, começou a perceber as cortinas esvoaçantes, ora translúcidas, ora sombrias, escondendo as cicatrizes meteóricas da protagonista daquele céu.
                 Distraída e encantada como seguia nem notou que o relógio atravessara para o outro dia e continuou andando, agora já sem saber para onde ia. Tropeçou em alguma coisa, quase caiu, mas não... Olhou para os próprios pés e reconheceu neles os sapatos de boneca que lhe foram dados por papai anos antes, no dia em que ele não voltou mais. 
                 Um susto! Que estranho!!! Havia mais um punhado de anos que precisara se desfazer dos adorados sapatinhos vermelhos de tão velhos, já sem cor, abrindo bocas famintas no solado.
                 Seguiu andando até a loja de vestidos onde podia se ver no reflexo da vitrine. Assustou-se ainda mais. Reencontrou-se ali com a menina de 14 anos com o vestido poá que levava um delicado laço vermelho de cetim na cintura. O vestido perfeito para calçar os sapatos de boneca. Cabelos sempre muito negros, todavia neste cenário, livres ao vento como seu coração ainda ingênuo.
                 A sensação de estranhamento tomava conta, só que não tinha medo. Parecia-lhe que atravessara uma linha no espaço-tempo onde podia ser a lua, protagonizando, dançando sozinha na escuridão por detrás das cortinas transparentes de umas nuvens ora lilases ora rosadas como a pele de suas bochechas.
                 De longe se ouvia, de repente, um LP tocando "A Valsinha" do Chico e depois a "Joana Francesa". Olhou para os lados. Não havia ninguém... E se houvesse? Fechou os olhos, abriu os braços e como que tomada pelo cavalheiro se pôs a valsar e depois a girar. Desligada de tudo o mais, testemunhada pela brilhante amiga redonda.
                 Obedeceu ao Chico e abriu os olhos.
                 De novo o reflexo na vitrine, porém não eram mais os sapatos vermelhos nem a fita de cetim. Eram de volta os tons azul-violáceos e as variações de preto e cinza, mas os cabelos... Não havia mais trança, havia longas ondas negras dançando quase no ritmo da música que continuava em outra voz e agora falava da "mesma taça" e da "mesma luz brilhando no champagne" em um café parisiense...
                 Girou mais uma vez, como um pião, sentindo-lhe o vestido subir mostrando os joelhos e um pouco acima. Gargalhou deliciosamente, olhou para o relógio atrás dos vestidos e viu que não era ainda meia-noite. Novamente uma sensação de estranhamento. Deu um suspiro curioso, subiu e baixou os ombros como quem não liga e seguiu a passos rápidos pensando: Teria vivido um momento mágico ou teria sido loucura?


                      

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

1º ensaio sobre as cores: BRANCO

De todas as cores a mais tola é a branca. Branco tá em todo lugar e é tão cor quanto Preto em sua ausência de cor. Luz, matiz, tanto faz... Preto e Branco são todas as cores mas mergulha neles a ausência, o vazio, o monotonamente comum. Até Cinza é mais cor que isso!

O Branco cansa, engole, domina e não tem voz. Ele só PODE. Pode tudo sozinho, misturado ele não é mais..!

Ele sufoca, castra. Ele determina os limites, ele gosta dessa sua missão de Bedel das cores e carrega a arrogância das almas NÃO prontas, NÃO vividas, NÃO sentidas.

O Branco é puro imaculado! O casto! O sem crimes nem pecados! O sem vida!

Ele é bruto, grosso, dono de todas as verdades e normas e é doce, suave, confortável, disponível... Fácil... O Branco é a arrogância da  solidão da prostituta! A prostituta carrega todas as cores e nenhuma! A menina, a mulher solitária e a bailarina têm as cores que o Branco não respeita. A prostituta carrega o desrespeito. O Branco é a arrogância do medo!

É tudo isso até cruzar a primeira cor! Aí vem a mácula, aí vem o escárnio... em sua alma de puta o Branco chupa a cor até ela perder vida, cansa explora, fode com a cor e depois declara: Melhorei ela, suavizei!

O Branco é a puta do Preto. Filho de puta não nega o pai, filho de Preto com Branco é Cinza, e Cinza é cor! Cinza carrega curiosidade, carrega vida, melodia... Tá bom que não é um Vermelho, um Azul, um Amarelo vivos ou mortos mas Cinza é a cor das sandálias da bailarina. Quer mais vida!!?

Cinza é a vida escondida, inesperada... Cinza é a salvação do Branco!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

FURTA COR

...é quando a gente infla... A veia salta, o suor escorre pela pele lavando a sujeira do tempo! Força, garra... Nada disso... Só o olhar de dentro é que lhe mostrou o que estava acontecendo. De fora, tudo seguia o relógio do normal. Acorda banho café da manhã escritório almoço escritório jantar uma cervejinha e umas pesquisas pra quem sabe... Outro escritório...

De dentro... Ah, de dentro não tinha que seguir regras, fechava os olhos e ia onde bem entendia, chegava a sentir a pele do moço bonito dos olhos furta cor. Furtou seu coração! Partiu com ele, viu um mundo incrível pintado de cores que ficam bem no meio. Sempre uma coisa no meio: o peito - "cheio de amores vãos" - uma menina, uma mulher, uma tonelada de sonhos e aqueles olhos... E aquelas cores...

Numa alma cinza, como podem caber tantas cores??? 
Parece que não era pra ter cor, mas de repente as cores vêm como atraídas pela falta de si mesmas... Nada cinza, nada pastel... Elas puxam vida! Rodam, levam a menina àqueles olhos e lá ela dança, ela simplesmente entra na cabeça dele e dá piruetas.

Ahhhh... Como ela iria imaginar que poderia? Quando ela poderia querer partir? Jamais... E ela não foi e ele não veio! Mas de alguma maneira inexplicável ela estava lá, dando piruetas, e ele estava cá colorindo... E o suor lavando o corpo cinza... E o sonho suportando o real... E o brilho colorido... E a curva, aquela única curva, aquele único laço, só aquele ponto de encontro, fora do ponto de equilíbrio... Inalcançável?

O suor nos olhos, ardendo, o corpo quente, molhado, mole, cansado, sem cor, sem tom, sem ritmo... E as cores vivas brilhantes, cada vez mais, fazendo música... Os desenhos e os olhos embaçados perdidos sonhados furtados... A noite longa agora passa voando, a música contagiante enerva, mas as cores, por que diabos as cores continuam ainda mais vibrantes, mais atraentes, mais sedutoras, mais sonoras, mais presentes?!? Esse mundo daqui é cinza, não é pra ter cor, não é pra ter olhos que furtam... O tempo...

O tempo passou? Ficou? Voltou? Sabe que pode voltar! Ali onde se encontra pode tudo, mas precisa de uma veia de realidade e nela o tempo não volta... Fica no pode ser... Pode ser que talvez... Talvez ele dance e ela colora... Ela vê o futuro pela janela emoldurada de rendas em seu coração e ele não é cinza por dentro! Estranho... e aqueles olhos lá dentro? Ah, aqueles olhos... eles furtam cores e corações!

O corpo esfria, a veia se recolhe e o coração fecha as cortinas e a janela também... A menina que dança vai acordar e rebolar pra chegar na hora ao escritório...

Os olhos?! Os olhos se fecham! As cores somem novamente e ela se reconhece no espelho do banheiro: cinza, variações de branco e preto... Se ao menos fosse aquele sépia que fica verde vibrante na chuva!


E mais uma vez, no pequeno e ínfimo, quase invisível espaço entre dois sonhos, mais um café da manhã, mais um dia de escritório e aquela sensação: eu sei o que tem depois da porta... eu abri as janelas e vi o menino dançando e a menina colorindo... e aqueles olhos... ah, os olhos que me furtam cores!

sábado, 21 de setembro de 2013

SER


Uma veia se levanta e ergue um rio de cores e flores onde nadam tantas coisas que sangue é apenas fluido de emoção para o coração e os órgãos respirarem. O resto é verde, da cor das folhas do cerrado depois da primeira chuva. Vermelho, laranja, roxo, rosa e dourado como o pôr do sol dos dias frios em que o céu toma uma infinidade de cores improváveis. Cinza e prateado como a lágrima e a fita da sandália da moça bonita que dança dança dança, rodopia no funil do ciclone, quando o temporal se acha bailarina...

Relógios parados enfeitam as paredes e correm nelas bicicletas, patins, bolinhas de gude, pipas, pranchas, asas deltas, gamas, betas, alfas... sem ninguém na frente, só as coisas personificando universos impossíveis mas que aqui existem sem tantas amarras do pode ser...

QUE NÃO SEJA SENDO!!!

Um céu sentando na nuvem que cai em cachoeira dentro da menina que muda de cor, no olho do furacão doce, lento e macio, como a brisa fresca da mais gostosa noite de verão do pólo sul, a oeste da grama rosa de algodão doce...

E por que não? Afinal, aqui tudo PODE, tudo QUER, todo NÃO é AO CONTRÁRIO e todo contrário é mais belo que o feio jamais visto, tocado ou lembrado...

Perspectivas se cruzam perpendiculares, côncavas e convexas, sem lentes, apenas para passear!
Passam passageiros e ninguém vê ninguém só sente, e se move, e toca o inexistente nesse mundo mágico de não ser sendo pra não ter que ser alguma coisa que de tanto tentar nunca é...






Texto de minha autoria numa tarde triste e ociosa... Carolina Gobbi - Outubro de 2012