CANTO E LÁGRIMA: VIDA INTENSA E NÃO REGIDA

"Regida demais, intensa de menos. Lágrimas engolidas pelos cantos da alma que não tem tempo pra sorrir, chorar, sentir. Mãe, irmã, filha, amante, dona de casa, esposa, profissional exemplo..." Relatos das várias mulheres que se escondem dentro de cada mulher, seu mundo, intocável para aqueles que só enxergam com os olhos da carne.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

EU QUERO


Eu quero o riso e o sorriso
Quero o desencontro
Que traz o inesperado
Na forma doce de surpresa no caminho

Eu quero o grito e o sussurro
Quero o entrelaço 
Que junta corpos num só ato
Do jeito quente que brincam os impuros

Eu quero a fantasia e o real
Quero o abstrato
Na forma mágica de sonho
Na concretice da coisa-fato

Quero coisa onde fui bicho
Quero bicho onde fui gente
Quero gente onde fui coisa

Eu quero TUDO
Eu quero NADA
Eu quero ir e ficar
Quero sonhar sorrir dançar
Quero transcender
Quero transformar

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A hora do encantamento

ra quase meia-noite. A lua cheia tomava a cena num céu violeta. Uma mulher caminhava na rua vazia, testemunhava o espetáculo de camarote. Cabelos muito escuros unidos em uma longa trança colada na cabeça. Alguns fios dançando esvoaçantes, fugindo das regras do penteado como ela gostaria de ousar com as regras de sua vidinha correta demais.
                 Um vestido cinza azulado mostrava discretamente as linhas dos seios não tão fartos e marcava-lhe a silhueta de mulher bem feita. Exibia quase metade de suas longas pernas um tanto finas, que terminavam em um salto alto, quase da cor do céu, que lhe cobria os pés e chamava o olhar para seus passos leves, como se flutuasse...     
                 Há tempos que tinha adoração por sapatos e por aquela cor sempre fora fascinada - dos sapatos e do céu, que parecia carregar em sua essência propriedades mágicas. E naquela noite em especial algo aconteceria que a mudaria para sempre.
                 Caminhando distraidamente, o olhar para o alto, começou a perceber as cortinas esvoaçantes, ora translúcidas, ora sombrias, escondendo as cicatrizes meteóricas da protagonista daquele céu.
                 Distraída e encantada como seguia nem notou que o relógio atravessara para o outro dia e continuou andando, agora já sem saber para onde ia. Tropeçou em alguma coisa, quase caiu, mas não... Olhou para os próprios pés e reconheceu neles os sapatos de boneca que lhe foram dados por papai anos antes, no dia em que ele não voltou mais. 
                 Um susto! Que estranho!!! Havia mais um punhado de anos que precisara se desfazer dos adorados sapatinhos vermelhos de tão velhos, já sem cor, abrindo bocas famintas no solado.
                 Seguiu andando até a loja de vestidos onde podia se ver no reflexo da vitrine. Assustou-se ainda mais. Reencontrou-se ali com a menina de 14 anos com o vestido poá que levava um delicado laço vermelho de cetim na cintura. O vestido perfeito para calçar os sapatos de boneca. Cabelos sempre muito negros, todavia neste cenário, livres ao vento como seu coração ainda ingênuo.
                 A sensação de estranhamento tomava conta, só que não tinha medo. Parecia-lhe que atravessara uma linha no espaço-tempo onde podia ser a lua, protagonizando, dançando sozinha na escuridão por detrás das cortinas transparentes de umas nuvens ora lilases ora rosadas como a pele de suas bochechas.
                 De longe se ouvia, de repente, um LP tocando "A Valsinha" do Chico e depois a "Joana Francesa". Olhou para os lados. Não havia ninguém... E se houvesse? Fechou os olhos, abriu os braços e como que tomada pelo cavalheiro se pôs a valsar e depois a girar. Desligada de tudo o mais, testemunhada pela brilhante amiga redonda.
                 Obedeceu ao Chico e abriu os olhos.
                 De novo o reflexo na vitrine, porém não eram mais os sapatos vermelhos nem a fita de cetim. Eram de volta os tons azul-violáceos e as variações de preto e cinza, mas os cabelos... Não havia mais trança, havia longas ondas negras dançando quase no ritmo da música que continuava em outra voz e agora falava da "mesma taça" e da "mesma luz brilhando no champagne" em um café parisiense...
                 Girou mais uma vez, como um pião, sentindo-lhe o vestido subir mostrando os joelhos e um pouco acima. Gargalhou deliciosamente, olhou para o relógio atrás dos vestidos e viu que não era ainda meia-noite. Novamente uma sensação de estranhamento. Deu um suspiro curioso, subiu e baixou os ombros como quem não liga e seguiu a passos rápidos pensando: Teria vivido um momento mágico ou teria sido loucura?


                      

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

1º ensaio sobre as cores: BRANCO

De todas as cores a mais tola é a branca. Branco tá em todo lugar e é tão cor quanto Preto em sua ausência de cor. Luz, matiz, tanto faz... Preto e Branco são todas as cores mas mergulha neles a ausência, o vazio, o monotonamente comum. Até Cinza é mais cor que isso!

O Branco cansa, engole, domina e não tem voz. Ele só PODE. Pode tudo sozinho, misturado ele não é mais..!

Ele sufoca, castra. Ele determina os limites, ele gosta dessa sua missão de Bedel das cores e carrega a arrogância das almas NÃO prontas, NÃO vividas, NÃO sentidas.

O Branco é puro imaculado! O casto! O sem crimes nem pecados! O sem vida!

Ele é bruto, grosso, dono de todas as verdades e normas e é doce, suave, confortável, disponível... Fácil... O Branco é a arrogância da  solidão da prostituta! A prostituta carrega todas as cores e nenhuma! A menina, a mulher solitária e a bailarina têm as cores que o Branco não respeita. A prostituta carrega o desrespeito. O Branco é a arrogância do medo!

É tudo isso até cruzar a primeira cor! Aí vem a mácula, aí vem o escárnio... em sua alma de puta o Branco chupa a cor até ela perder vida, cansa explora, fode com a cor e depois declara: Melhorei ela, suavizei!

O Branco é a puta do Preto. Filho de puta não nega o pai, filho de Preto com Branco é Cinza, e Cinza é cor! Cinza carrega curiosidade, carrega vida, melodia... Tá bom que não é um Vermelho, um Azul, um Amarelo vivos ou mortos mas Cinza é a cor das sandálias da bailarina. Quer mais vida!!?

Cinza é a vida escondida, inesperada... Cinza é a salvação do Branco!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

FURTA COR

...é quando a gente infla... A veia salta, o suor escorre pela pele lavando a sujeira do tempo! Força, garra... Nada disso... Só o olhar de dentro é que lhe mostrou o que estava acontecendo. De fora, tudo seguia o relógio do normal. Acorda banho café da manhã escritório almoço escritório jantar uma cervejinha e umas pesquisas pra quem sabe... Outro escritório...

De dentro... Ah, de dentro não tinha que seguir regras, fechava os olhos e ia onde bem entendia, chegava a sentir a pele do moço bonito dos olhos furta cor. Furtou seu coração! Partiu com ele, viu um mundo incrível pintado de cores que ficam bem no meio. Sempre uma coisa no meio: o peito - "cheio de amores vãos" - uma menina, uma mulher, uma tonelada de sonhos e aqueles olhos... E aquelas cores...

Numa alma cinza, como podem caber tantas cores??? 
Parece que não era pra ter cor, mas de repente as cores vêm como atraídas pela falta de si mesmas... Nada cinza, nada pastel... Elas puxam vida! Rodam, levam a menina àqueles olhos e lá ela dança, ela simplesmente entra na cabeça dele e dá piruetas.

Ahhhh... Como ela iria imaginar que poderia? Quando ela poderia querer partir? Jamais... E ela não foi e ele não veio! Mas de alguma maneira inexplicável ela estava lá, dando piruetas, e ele estava cá colorindo... E o suor lavando o corpo cinza... E o sonho suportando o real... E o brilho colorido... E a curva, aquela única curva, aquele único laço, só aquele ponto de encontro, fora do ponto de equilíbrio... Inalcançável?

O suor nos olhos, ardendo, o corpo quente, molhado, mole, cansado, sem cor, sem tom, sem ritmo... E as cores vivas brilhantes, cada vez mais, fazendo música... Os desenhos e os olhos embaçados perdidos sonhados furtados... A noite longa agora passa voando, a música contagiante enerva, mas as cores, por que diabos as cores continuam ainda mais vibrantes, mais atraentes, mais sedutoras, mais sonoras, mais presentes?!? Esse mundo daqui é cinza, não é pra ter cor, não é pra ter olhos que furtam... O tempo...

O tempo passou? Ficou? Voltou? Sabe que pode voltar! Ali onde se encontra pode tudo, mas precisa de uma veia de realidade e nela o tempo não volta... Fica no pode ser... Pode ser que talvez... Talvez ele dance e ela colora... Ela vê o futuro pela janela emoldurada de rendas em seu coração e ele não é cinza por dentro! Estranho... e aqueles olhos lá dentro? Ah, aqueles olhos... eles furtam cores e corações!

O corpo esfria, a veia se recolhe e o coração fecha as cortinas e a janela também... A menina que dança vai acordar e rebolar pra chegar na hora ao escritório...

Os olhos?! Os olhos se fecham! As cores somem novamente e ela se reconhece no espelho do banheiro: cinza, variações de branco e preto... Se ao menos fosse aquele sépia que fica verde vibrante na chuva!


E mais uma vez, no pequeno e ínfimo, quase invisível espaço entre dois sonhos, mais um café da manhã, mais um dia de escritório e aquela sensação: eu sei o que tem depois da porta... eu abri as janelas e vi o menino dançando e a menina colorindo... e aqueles olhos... ah, os olhos que me furtam cores!

sábado, 21 de setembro de 2013

SER


Uma veia se levanta e ergue um rio de cores e flores onde nadam tantas coisas que sangue é apenas fluido de emoção para o coração e os órgãos respirarem. O resto é verde, da cor das folhas do cerrado depois da primeira chuva. Vermelho, laranja, roxo, rosa e dourado como o pôr do sol dos dias frios em que o céu toma uma infinidade de cores improváveis. Cinza e prateado como a lágrima e a fita da sandália da moça bonita que dança dança dança, rodopia no funil do ciclone, quando o temporal se acha bailarina...

Relógios parados enfeitam as paredes e correm nelas bicicletas, patins, bolinhas de gude, pipas, pranchas, asas deltas, gamas, betas, alfas... sem ninguém na frente, só as coisas personificando universos impossíveis mas que aqui existem sem tantas amarras do pode ser...

QUE NÃO SEJA SENDO!!!

Um céu sentando na nuvem que cai em cachoeira dentro da menina que muda de cor, no olho do furacão doce, lento e macio, como a brisa fresca da mais gostosa noite de verão do pólo sul, a oeste da grama rosa de algodão doce...

E por que não? Afinal, aqui tudo PODE, tudo QUER, todo NÃO é AO CONTRÁRIO e todo contrário é mais belo que o feio jamais visto, tocado ou lembrado...

Perspectivas se cruzam perpendiculares, côncavas e convexas, sem lentes, apenas para passear!
Passam passageiros e ninguém vê ninguém só sente, e se move, e toca o inexistente nesse mundo mágico de não ser sendo pra não ter que ser alguma coisa que de tanto tentar nunca é...






Texto de minha autoria numa tarde triste e ociosa... Carolina Gobbi - Outubro de 2012

terça-feira, 4 de março de 2008

Canto e Lágrima: Vida Intensa e Não Regida


(Carolina Gobbi)

Regida demais, intensa de menos. Lágrimas engolidas pelos cantos da alma que não tem tempo pra sorrir, chorar, sentir. Mãe, irmã, filha, amante, dona de casa, esposa, profissional exemplo não reconhecida. Cabelo impecável, roupas impecáveis, casa impecável, jantares impecáveis, lingerie impecável, relatórios impecáveis.

Tempo...
Tempo pra ser amada. Tempo pra amar. Tempo... Mentiras, amores desfeitos, amantes perfeitos, molejo, peitos, desfecho. Amores? Respira!!! Sem tempo. Sem jeito. Sem peito. Sem coração no peito. Amar sentir gozar... Desfeito! Despeito! Bem feito! Não dá! Não tem outro jeito!!!

Sentir dói. Ninguém sente. Falta tempo. Sentir sozinho dói. Sentir solidão dói. Sentir, amar, querer, gozar, brincar, brindar, perder, sonhar, partir, frustrar. Tempo demais dói. Tempo demais mata a mentira. Tempo demais traz verdade. Traz medo. Traz sabor. E amarga, e engasga, e sufoca, e mata...

Tempo...

Sem tempo. Não pensa! Faz. Faz! Tem que fazer!!! Filhos, amigos, parentes, amantes, maridos, faxinas, comidas, manicures, pedicures, escritórios, ex-clitóris, amores mal-feitos,
happy-hours, bebidas, sexo, cigarros, sexo... Lágrimas perdidas num canto da noite sem orgasmos. Um canto sem tempo. O cantinho molhado em que o tempo pára...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Fantasia


(Carolina Gobbi)


Luz clara dos meus olhos
Raio de sol
Vem agora! Vem rasante
Amarrota meu lençol!

Elfo lindo dos meus sonhos
Fantasia tão real
Vê meu corpo cintilante
Vem sentir amor carnal

Vamos juntos pra bem longe
Ao meu sul quero teu norte
Tenho pressa, venha logo
Que esse sonho não demora

Angústia



(Carolina Gobbi)

Esta ausência que dói em meu corpo
Esta busca incessante
Esta culpa, este peso morto
Esta Nua no céu, brilhante

Este mel, fel de saudade
Esta boca, fria, ressecada
A solidão escandalosa da cidade
O vento forte e triste na sacada

Invade a varanda do meu ser
Cala a multidão e vem me ter
Molha estes lábios acre doces
Cobre este corpo, veste com você
Deixa leve, faz ciranda
Pára tudo e preenche esta distância

Já não quero, agora basta!!!
Abandono a dor de não te ter

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Perto do Fogo

Carolina Gobbi

Um vulcão adormecido
Ameaça explodir dentro de mim
A temperatura sobe
Os odores se misturam
Sufocam
O meu corpo arde

NÃO SE APROXIME!!!

Queimaduras podem acontecer
Meu corpo explodiria em você
Não quero te ferir

Essa lava que brota do meu ser
Esse magma de me ter
Deixa marcas

Esse fogo inconstante
Essa chama flamulante/flutuante
Leva toda uma existência
Pra deixar esquecer

ME APAGUE!!!...
Mas não entre em meu ser

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Morangos e cinta-liga


Aline Fernanda
Noite fria, céu cheio de nuvens.
Um cálice de uma bebida qualquer.
Morangos e velas sobre a mesa.
O cinzeiro já transborda.
Torno a encher o cálice.
Os sapatos já estão em algum canto qualquer do cômodo.
As ligas já soltei da meia, o nó da gravata já desatei.
O batom, ficou na borda do cálice.
Encho de morangos o cálice.
Recosto-me no móvel...

Uma brisa suave brinca com as chamas da vela e dissipa a fumaça de cigarro, vela e incenso...
Algumas folhas de papel estão soltas pela mesa...
O papel me aponta o lápis...
Tomo-os...
E sou tomada...

Sob esta luz dançante vou deslizando as mãos sobre o papel e deixo-me levar...
E as lembranças surgem...
Os sentimentos vão, um a um, desvendando-se como um quebra-cabeças com vida própria e, de repente, me pego, com as mãos ainda deslizando sobre o papel, a imaginar seu olhar.
Como me contemplaria? Como seria o brilho dos seus olhos ao ver-me entregando-me a você e, pouco a pouco, revelando o que a tanto custo afasto de seu alcance...
Meus olhos conversam com os seus como se eu fora mera expectadora e marionete desta cena.
Deixo-me levar e vou deixando que o vento me conduza numa dança despretenciosa e leve...
E nesta dança meu corpo com o seu... ambos diretores destes movimentos...
Eu e você... é já considero isto, mesmo achando engraçado e pensando como consegui protelar por tanto tempo que este desejo aflorasse...

Tomei o cálice novamente, sorvi mais daquela bebida, acendi mais um cigarro...

E a companhia já não está mais aqui.

Solidão Acompanhada

Carolina Gobbi

Vodka, morangos, mágoas
pensamentos distantes...
Sinto frio... Sinto medo...
Não sinto você!

É o princípio do fim
Não quero o fim
Não quero o começo
Só quero!
Quero e não posso ter
Quero porque não posso ter
Por que não posso ter?


Navego mares naufragados
rios (des)encantados
florestas inexploradas
céus intensamente nublados
Não há sol
Estrelas apagadas e só.

Solidão...
O sim querendo não
Não sim sim não

Me busco sol
Me busco sul
Me busco só
Mas não quero só
Mas mão quero só
só pra mim
só em mim
só feliz
feliz e só
só e feliz?
Luz e sol
Apaguem as nuvens!
Dêem-me sol!


Me engana
Me beija
Me mente melhor!

Mentira?
menina mulher
moça de olhos de céu
moça que ama
moça mulher
menina mentira
Homem?
homem menino
menino dos olhos da menina
menina dos olhos da Bahia
Bahia do sul do Brasil
Brasil do planeta da Lua
Lua dos olhos do Sol

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Brinquedo de papel marché











Aline de Oliveira

Tem coisas que realmente são boas demais pra ser verdade.
Por um instante o brinquedo de papel marché creu que realmente nada poderia desbotá-lo.
Ele creu na esperança, aceitou a realidade da ilusão
E deixou-se invadir e inundar tingindo-se das radiantes cores da alegria e do sonho que parecia tão real.
Nunca fora tão feliz.
O brilho dos seus olhos, qual um farol, poderiam iluminar qualquer escuridão, afastando toda tristeza...

Foi-se o riso...
O brilho dos olhos se esvaiu...
O colorido brinquedo de papel marché desbotou.
O que houve?
Será que não era mesmo pra ser?
E se era pra acabar, pra que começar?

Dúvidas que vieram tingir de cinza solidão os dias que eram coloridos pelas radiantes cores da alegria.

Foi-se o canto, resta o pesar.
A necessidade de consertar...
Necessidade desconcertante...
Necessidade frustante...
Necessidade que não vai dar para saciar...

Necessito.
Necessito mesmo?
Não.
Eu sei que não... mas quero ter a ilusão.
Pra que?
Ora se eu não quero saber que te interessa perguntar-me.

A doçura esquivasse ante a presença agressiva do desprezo...
Tenta contra-argumentar, ou pelo menos suavizar um pouco as coisas, mas o desprezo e a impassividade não costumam andar sozinhos, geralmente trazem companhia, e a doçura finalmente é vencida.

Doçura vencida, sai de cena e chora pelo brinquedo de papel marché que fora desbotado...
A doçura não pode agir sozinha... sente-se frustrada, fracassada, pois não consegue impedir a fúria da impulsividade nem o ímpeto da dúvida... e após a devastação causada pela rejeição, doçura sente-se tão fraca que não é capaz sequer de acalentar o pequeno, frágil, só e desbotado brinquedo de papel marché.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Esquecimento

Carolina Gobbi

Enquanto eu ainda era um feto
Imaginava o que seria o mundo
Imaginava como ele seria perfeito
Os sonhos cresciam dentro de mim
Como uma nuvem que chove pra chegar ao mar
Antes de vir ao mundo já aprendera a viajar
Visitava um mundo que era...
Não sei, acho que esqueci...

Um dia enfim abri meus olhos
E ouvi minha própria voz... e chorei...
Tive, quando nasci, minha primeira desilusão
Então dormi e logo comecei a sonhar de novo
Mas cada vez que olhava para fora de mim
Vinha de dentro um forte e doloroso grito
As lágrimas só cessaram à medida que esqueci
A cada segundo esquecia de um sonho
De uma esperança, de momentos que vivi

Eu já em acostumara com o mundo em que nasci
Quando criança aprendi a viver aqui
Os sonhos recomeçavam a fluir
Agora como rios, grandes rios
Formados por nuvens que chovem pro mar
Mar feito das lágrimas
As lágrimas que chorei quando... esqueci...

Finalmente cresci!
Era agora uma mulher
Aprendera a perceber a hora de sorrir
Aprendera agora a não me permitir chorar
Mas flutuava num infindável mar
De lágrimas que em muitos sonhos colhi
Sonhos não realizados... Sonhos que esqueci...

Flutuando no único sonho
Que consegui realizar
Vou terminando meus dias
Escrevendo sobre sonhar
Volto agora a ser um ‘feto’
A imaginar o mundo de lá
Só que agora sei que quando eu tiver ido
Tudo o que é meu... Tudo o que sonhei...
Tudo o que escrevi e escreverei...
Será esquecido!

Primavera de 94


Aline Oliveira

Primavera de 94

Mudei-me da Qd 12 pra Qd 2.

Resignada... revoltada. Eu tinha toda uma história naquela quadra que eu morava...

Perdi inclusive o primeiro jogo do campeonato de basquete. Meu treinador puto comigo... eu puta com um bando de gente.

Na casa ao lado uma menina super simpática, risonha e falante me apresenta ao pessoal da rua.
Pessoalzinho mais ou menos. Desconfiava de tudo e todos. Rua estranha dividida em começo da rua, meio e galera do quadradão... coisa estranha. Na 12 era a rua inteirinha unida. De uma ponta a outra da quadra.
Beleza... pelo menos num vou ficar tão sozinha, e ela é super gente boa. A menina falante da casa à minha direita me apresenta ao meu vizinho à esquerda da minha nova casa. Legalzinho ele também. E quando vou à casa dela pra fazer aquela comum troca de informações chega sua prima... legalzinha tb... mas mora bem longe da gente. Mora no meio do lugar onde começam os edifícios. Pouca coisa mais tarde chega o irmão da menina falante...

O mundo parou. Senti um aperto tão grande dentro de mim que queria vomitar!!! Meu Deus eu queria sair correndo dali. Que sensação horrível. Minhas pernas não me atendiam... meus olhos só se moviam em uma direção... Os olhos dele!!

E ele?! Sequer notou minha presença...
A menina falante me apresentou a ele, mas ele sequer chegou a fitar-me os olhos.


Preparativos pra Copa...

Maravilha... A menina falante e os outros da rua já podiam ser chamados de amigos. E eu os via realmente como amigos. Todos nós envolvidos em enfeitar a quadra e fazer vaquinha pra comprar td que seria consumido durante os jogos. Telão de um na parede de outro, com som de outro, e todo mundo unido. Até o irmão que nem olhava nos meus olhos agora já conversava comigo... Sim acho que estávamos perto de uma amizade... Mas eu continuava sentindo aquela sensação horrorosa cada vez que ele chegava perto.
Brasil ganhou. Felicidade.

Em comemoração à vitória fomos para a chácara dos pais da menina falante e sorridente que se tornara minha mais nova melhor amiga. Além dos pais dela e nós, foram também o vizinho da esquerda que era o melhor amigo do irmão dela,e claro, pra meu desespero, confusão e felicidade, o irmão dela.
Meu Deus, nunca tinha ficado tão feliz em estar espremida no banco de trás de um carro. Foram o pai e a mãe dela no banco da frente e nós quatro no banco de trás. Eu bem pertinho dele, encostadinha nele e de novo aquela coisa que me espremia o estômago e me tirava o ar voltava a me atormentar.
Que coisa estranha era essa que eu não sabia descrever nem controlar? Sei que todo mundo falava comigo e eu não conseguia fazer nada além de implorar pro meu coração bater mais devagar e mais baixo um pouquinho pq a impressão que eu tinha era que todo mundo tava escutando ele acelerado e tão desesperado quanto eu.

Chegamos ao nosso destino. Graças a deus. Descarregamos o carro e todas aquelas coisas normais. Fomos jogar, nadar no rio... E de repente um incidente. Eu na ansiedade de participar de tudo tirei a tala do braço, sim eu estava usando uma desde que caí andando de patins na nova rua, e como eu não movimentava o braço há alguns dias normal que ele não tivesse muita força. Então imagina a confusão que resultou da combinação braço recém tirado tala com rio desconhecido mais correnteza forte. Menina lerda sendo arrastada na certa. E eis que surge meu herói. Não tinha capa, nem voava, apenas trajava bermuda e camiseta, mas era ele o herói mais lindo do mundo. E acompanhado dele vinham sempre sintomas totalmente desagradáveis. Então, por causa dos sintomas, fiquei estática, não conseguia atender às vozes que me pediam para segurar em suas mãos. Mas ele me segurou. Eu não tava nem aí pro fato de que eu estivera prestes a me afogar, eu só conseguia pensar em uma coisa: "Ele me segurou". Ele, que não olhava pra mim, me tocou voluntariamente. Ai que o mundo todo sorriu pra mim naquele momento. Mas depois eu voltei a ser invisível pra ele. E aí sim eu senti a pior dor que eu já havia experimentado até então. Era algo que me despedaçava por dentro. Como se milhares de gafanhotos atacassem meu coraçãozinho tão ingênuo e fossem arrancando, um a um, fragmentos dele.

E surge a proposta tentadora da minha mais nova melhor amiga e cúmplice de todas as minhas novas experiências. Era chegada a hora de mais uma. "Vamos experimentar Cuba-libre?" - perguntou ela. Hesitei a princípio, mas quando lembrei da dor avassaladora que me consumia, decidi que não havia melhor hora. Já no terceiro copo daquela mistura meio doce, meio amarga, eu sentia que começava a perder o absoluto controle sobre alguns órgãos do meu corpo. Além de alguns músculos, tecidos e membros. Os braços, que já não eram tão fáceis de controlar por causa de seu tamanho que aumentava dia a dia, tornaram-se ainda mais desastrados e minha cabeça, já normalmente muito confusa e agitada, agora inventava rodopios que só eu percebia. Tomei mais uns copos, desta vez com um pouco mais de pressa, na esperança de me livrar destas novas sensações, mas que para minha infelicidade fizeram aumentar a intensidade de tudo que eu estava sentindo e, debaixo de uma lua cheia e iluminada, resolvi me aproximar daquele que fora ao mesmo tempo meu herói e meu vilão. Eu só havia esquecido dos sintomas que me acometiam cada vez que eu me aproximava dele. E assim como o Super-Homem não se controlava quando exposto à terrível pedra, assim eu, não pude controlar as palavras que saíam da minha boca. Muitas delas quase inaudíveis, por causa do leve adormecimento que tomou minha língua, e então, zonza, proferi um:
-Eu to apaixonada por você... e quero um beijo.

E de repente meu corpo, até então obediente e racional, criou vida própria e, numa rebelião interna liderada pelo meu coração, resolveu transformar em ação o que os lábios haviam proferido. E com todo carinho e respeito dignos de um herói, veio a punhalada:
- Sinto muito, linda. Não posso fazer isto com você. Não quero que você sofra, mas não seria justo receber este seu carinho sendo que meu carinho pertence a outra menina.

Nessa hora, aqueles sintomas que sempre aparecem quando me aproximo dele voltaram. Então minha cabeça começou a girar e que vontade de chorar. Que vontade de sair correndo. Meu estômago estava sendo espremido e, não!!! Oh não!!! Tantas emoções misturadas a tantas cubas só podiam ter um desastroso resultado. Pelo menos tudo, absolutamente tudo, que estava me incomodando até aquele momento coloquei, literalmente, pra fora.
Vergonha, conheci o verdadeiro significado desta palavra nesta noite. Mas eu pelo menos estaria em contato com ele por um bom tempo, ainda que indiretamente. Ou pelo menos algo que saiu de mim estaria.

Algum tempo depois, ainda nesta mesma noite despertei dentro do carro com a menina falante de um lado e o vizinho da esquerda do outro. Mas cadê o meu herói? Será que foi só um sonho ruim? Não acredito, ufa, que alívio. Pergunto por ele à sua irmã e ela me dá a notícia que eu não queria ouvir:
-Ele está se limpando depois do banho de líquidos indistingüíveis que você deu nele.

Ai que horror. Foi de verdade. Aquilo realmente aconteceu.
Tentei me restabelecer e fomos para o quarto dormir. Todos nós dormindo no mesmo quarto. Eu, meu herói/vilão, o vizinho e minha melhor amiga. No meio da noite um frio tenebroso misturado ao meu choro de vergonha e desalento fazem minhas cobertas tremularem. E mais uma vez ele veio me salvar. A despeito de todas as coisas horrendas que aconteceram durante o curso daquele dia, ele dividiu sua coberta comigo. Eu nunca dormira tão feliz até aquela noite.


Inverno de 2007.

Após os terríveis acontecimentos da primavera de 94, nos falávamos, eu e meu herói, sem sequer citar a seqüência de incidentes ocorridos. Tocávamos a vida normalmente. Até que nasceu uma amizade bem leve. Sempre pude contar com seu ombro, afinal heróis estão aí para salvar-nos de todos os perigos. Só que eu fui uma mocinha muito atípica, tudo bem, a Srta. Lane também não era muito convencional.

Vários acontecimentos nos afastaram, mas de uma forma ou outra sempre estivemos próximos. Até que num despretensioso jantar de reencontro voltam todos aqueles sintomas há muito esquecidos. E desta vez, pelo menos, eu estava mais sóbria que da primeira. Mãos que brincam, rostos próximos, respiração quente e gostosa, um beijo que me leva ao passado como num túnel do tempo e me traz de volta ao futuro, carregando, impregnado em mim, todos aqueles sentimentos que inundavam aquele coração tão ingênuo e imaculado pelas paixões.
Que situação diferente. Agora não sou eu que peço. É-me roubado. Mas que belo presente de dia dos namorados. Hoje já não mais uma menina. Nem tão imaculada. Mas incrivelmente ele permanece herói. Preocupa-se tanto com o fato de não poder ter me protegido de todos os outros perigos da vida. E eu continuo, ali, sem falar nada, apenas fitando-o, observando este jantar à luz de velas regado a vinho tinto, ao som de uma voz feminina e melodiosa que toca algumas músicas românticas, rindo penso comigo mesma:
- Como o mundo dá voltas...